1965 – A espionagem comunista na Argentina

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No documento chamado: Informativné správy československej rozviedky a kontrarozviedky (signatura A2/2-922), encontra-se, entre outras, uma informação interessante sobre um comunista argentino chamado Lorca. Segundo o documento, ele era membro do Comitê Central do Partido Comunista da Argentina e o responsável pela cooperação com os cubanos, e que, em abril de 1965, esteve em Praga. Através da Seção de Assuntos Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista da Tchecoslováquia, foi organizado um encontro entre Lorca e um representante do serviço de inteligência da StB, pois o argentino trazia um valioso presente, o qual desejava entregar pessoalmente para os oficiais tchecoslovacos da inteligência.

O Partido Comunista da Argentina havia decidido entregar para a StB uma quantidade importante de material:

Bloco de papeis para a produção de passaportes argentinos (100 folhas formato A/5);

Carteiras de identidade argentinas em branco (do modelo mais atual);

Passaportes argentinos verdadeiros não usados, impressos em abril de 1965;

Novas regulações argentinas sobre imigração, ordens oficiais, avisos e decretos.

Na mencionada informação, (tratava-se de um informe periódico destinado ao chefe do serviço secreto, o ministro do interior) a StB avaliou os materiais como sendo de grande utilidade para o trabalho da parte técnica do I. S MV (Diretório I do Ministério do Interior – seção do serviço de inteligência ilegal). Segundo a conversa com Lorca, concluiu-se que os comunistas argentinos eram competentes para a aquisição de materiais como estes, mas o problema era entrega-los de uma maneira segura para os tchecoslovacos.

O presente de Buenos Aires também continha microfilmes feitos pelos comunistas argentinos. Ao entregá-los para os tchecos, Lorca avisou que era proibido informar sobre esse material aos cubanos. Os dispositivos com os microfilmes eram os chamados Mikrokropki (micro pontos), que eram fotos microscópicas das informações e que escondidas em pontos nos textos dos livros de literatura que o argentino levava consigo. A StB ao ler as imagens pôde revelar o que elas continham.

Uma lista de endereços com os códigos do Ministério de defesa nacional, juntamente com o deslocamento de unidades militares, comandos, sua rede especial de comunicação, rede de ondas curtas de rádio, endereços de quarteis e outros dados deste tipo referentes ao ano de 1962. Mapas de aeroportos civis e militares, instruções de aterrisagem, etc… instruções para unidades da marinha de guerra, deslocamento e extensão das forças da marinha de guerra.

Nos microfilmes também existia informação política sobre a liquidação de grupos guerrilheiros nas províncias de Salta e Jujuy em 1964 pela polícia argentina, assim como avaliação das operações policiais.

Durante a conversa Lorca também disse que todos os 50 camaradas, membros do partido comunista, que no âmbito da operação Manuel passaram por Praga, chegaram ao local de destino sem problemas. Agradeceu muito, em nome do Partido Comunista, por essa ajuda internacional.

Data em que as informações foram escritas: 12 de junho de 1965


Um membro do Comitê Central do Partido Comunista da Argentina foi a Cuba; o caminho geralmente era feito via Praga. A colaboração entre partidos comunistas e a StB não era uma forma comum de trabalho da StB; desde o início dos anos 60 existia uma proibição de contatos diretos deste tipo. Aqui nós temos uma exceção, pois, primeiramente, Lorca entrou em contato com a Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da Tchecoslováquia e lá foi decidido que os materiais que ele trouxera deveriam ser entregues ao Diretório I da StB, ou seja, era um assunto de competência do serviço de inteligência.

A operação Manuel foi uma enorme operação dos cubanos com colaboração da StB, onde vários guerrilheiros, militantes clandestinos latino americanos, etc. partiram de Cuba via Praga. Geralmente tratavam-se de pessoas preparadas para a luta de guerrilha em campos secretos de treinamento em Cuba, que, posteriormente, em seus países, deveriam realizar atividades terroristas ou organizar a luta contra as autoridades estabelecidas. Em Praga, a StB fornecia a esses viajantes documentos falsos que viabilizavam aos mesmos a volta para seus países.

Dirigentes históricos do comunismo argentino. Da esquerda para a direita: Rodolfo Ghioldi, Victorio Codovilla, Luis Emilio Recabarren, Alcira de la Peña, Benito Marianetti, Juan Ingalinella, Jorge Calvo e Alberto Cafaratti.

É curioso o fato de que a questão da entrega de materiais, que, sem dúvida, eram valiosos, estivesse associada ao postulado de não falar sobre isso aos cubanos. Isso sinaliza para um desentendimento entre o regime de Fidel Castro e os comunistas argentinos. De acordo com o documento, conclui-se que existia uma prática de entrega de informações de inteligência pelo Partido Comunista da Argentina aos cubanos, mas dessa vez, e por algum motivo, Praga foi escolhida como destinatário deste pacote de informações classificadas.

Vladimír Petrilák

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2 thoughts on “1965 – A espionagem comunista na Argentina

  1. Iria traduzir para o espanhol para tentar colocar em algum blog argentino (com as referências de vocês, claro), mas vi no site que vocês tem alguém que já traduz para o espanhol, então acho que não valeria a pena.

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