Josué Guimarães, novas informações sobre escritor e jornalista brasileiro

Um ano atrás, escrevemos o artigo  Josué Guimarães – é possível que tenha sido um agente da KGB? sobre as revelações publicadas na revista portuguesa “Expresso” ( edição de março de 2016), onde a reportagem apelava ao chamado: O Arquivo Mitrochin, e informava que o escritor Josué Guimarães havia sido um agente da KGB. Isto teria se dado quando, na década de 1970, ele era um correspondente da imprensa brasileira em Portugal.

Este adendo é um documento de conteúdo aparentemente não tão significante que encontramos nos arquivos da inteligência comunista tchecoslovaca, a StB. Nos arquivos do departamento da inteligência no estrangeiro, atualmente disponibilizados pelo ABS em Praga, encontramos um relatório do residente da StB no Brasil, o agente Skořepa, no correio enviado entre a central da StB em Praga e o residente do Rio de Janeiro. Esse documento é chamado de “Carta de Organização” e resume o conteúdo do trabalho do residente, de 11 de agosto a 7 de setembro de 1962. Em outras palavras, o residente escreveu uma lista de suas atividades de inteligência durante esse período, entre as quais, uma reunião com um residente do serviço soviético de inteligência da KGB no Rio de Janeiro, a condução de seus próprios agentes (ele deu datas exatas para cada um desses indivíduos) ou outros figurantes. Nessa lista, o residente também incluiu encontros com os chamados: “figurantes” (figurantes para cobertura do trabalho) – isto é, as pessoas não usadas operacionalmente, mas para mascarar suas atividades de inteligência no Brasil. Estes eram contatos legais, supostamente para legitimar seu trabalho oficial na embaixada.

E entre esses contatos também está o suposto agente da KGB, o escritor, e então jornalista, Josué Guimarães, com quem Skořepa (o codinome do residente) se encontrou em 25 de agosto de 1962. Isso significa apenas que o brasileiro foi registrado no documento StB, mas, ao qual a KGB tinha acesso. O fato de ser a mesma pessoa que a revista portuguesa relata pode ser facilmente verificado – uma cronologia detalhada sobre a vida do escritor e jornalista Josué Guimarães foi publicado no site da paginadogaucho.com.br. No ano de 1962, no período de 1961 a 1964 , ele era diretor geral da Agência Nacional (atual EBC), que é a mesma instituição que identifica o figurante contato do nosso agente tchecoslovaco.

Fonte: http://www.paginadogaucho.com.br/escr/jg.htm

O figurante não recebeu codinomes da República da Tchecoslováquia, o que significava que ele não era usado de forma oficial, era apenas um contato – como dissemos – legal. O agente Skořepa, nome verdadeiro nome: Jan Stehno, era o Segundo Secretário da Embaixada da Tchecoslováquia (Secretário de Imprensa) no Rio de Janeiro, então ele teve que manter contato com pessoas da mídia, incluindo o Diretor da Agência Nacional, Josué Guimarães. É por isso que este brasileiro foi mencionado no relatório de inteligência e, portanto, seu nome pode ser conhecido pelo KGB mesmo 15 anos antes de sua passagem por Lisboa (1976), a capital de Portugal, onde, de acordo com a revista Expresso, foi recrutado pela KGB e recebeu o codinome de “Gosha”.

Skořepa reunia-se regularmente com residentes da KGB no Rio de Janeiro, trocava informações, fornecia importante material de inteligência, e compartilhava experiências e observações. É possível que naquele momento no Rio pudessem tomado conhecimento através de seu camarada tchecoslovaco seu futuro “Gosha”. Isso não pode ser confirmado, mas também não pode ser descartado. Além disso, no departamento soviético na central em Praga, havia conselheiros soviéticos que tinham acesso aos documentos dos residentes no estrangeiros, o que seria uma segunda possibilidade dos soviéticos saberem da existência do diretor da Agência Nacional de imprensa. Por fim, muitas informações produzidas pelo StB aterrissaram na KGB, relatórios, análises ou anotações da StB, muitas vezes, traziam uma nota – para transmitir a amigos [soviéticos]. Simplesmente, a StB foi subordinada à KGB e o que o serviço tchecoslovaco sabia, também sabia o serviço soviético.

Observe também que a nota em questão data de 1962, ou seja, a rezidentura soviética estava em operação no Rio de Janeiro havia exatamente um ano, pois antes as relações com o Brasil estavam rompidas. Ao estudarmos os documentos tchecos sobre o Brasil, podemos ver que a inteligência tchecoslovaca conseguiu construir uma vasta e útil rede de contatos somente após alguns anos trabalhando no Brasil. A inteligência não era capaz de construir imediatamente uma rede de agentes, isso levava tempo – e quaisquer dicas, informações interessantes sobre como obter os “figurantes”, e até mesmo agentes, são inestimáveis. Poderia ter sido uma nota simples e breve – o agente Skořepa, durante uma reunião com o seu homólogo soviético, poderia ter ouvido a questão a partir daqui – e como foi com este Josué Guimarães? O espião tchecoslovaco poderia ter dito que ele era razoavelmente acessível. E isso poderia ter sido o suficiente para que os arquivos do KGB passassem a ter esse nome por escrito – para, por óbvio, trabalhá-lo. Este é, claro, apenas um suposição, mas é certo que, no início dos trabalhos dos residentes da KGB no Rio de Janeiro, os espiões soviéticos estavam preocupados principalmente com a construção de uma rede de contatos. De acordo com a mesma página sobre a biografia de Guimarães, em 1964, durante o governo do presidente João Goulart, ele organizou a viagem de jornalistas brasileiros à União Soviética e à China. Essa poderia ter sido outra razão pela qual os soviéticos poderiam se tornar ainda mais interessados em sua pessoa.

Com base nos fatos acima descritos, só podemos afirmar que: 1) um jornalista brasileiro foi registrado em um documento de inteligência tchecoslovaca, mas, ao mesmo tempo, 2) seria impossível ele não ter sido notado pela KGB. A segunda afirmação, de ele entrar no radar dos soviéticos, poderia se supor a partir da viagem a Moscou, em 1964, mas poderia se referir ao final de 1962, enquanto usado como “figurante” do residente da StB. Isso por si só não prova nada – mas fato é que há reportagem da revista “Expresso” e o Arquivo Mitrochin, e essas informações em conjunto devem ser levadas em consideração.

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