América Latina – panorama geral (ano 1963)

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Traçamos um panorama geral dos números de todas as rezidenturas (bases do serviço de inteligência no exterior) do serviço de inteligência tchecoslovaco (Departamento I da StB – divisão responsável pelo serviço de inteligência no estrangeiro) na América Latina, exceto Cuba. Na tabela abaixo, estão especificados os números de agentes;  de figurantes (em tcheco: typy), que eram contatos de algum modo interessantes para o serviço de inteligência; dos contatos secretos (em tcheco: důvěrných styků), que eram os colaboradores que de fato possuíam uma posição de agente (mas podiam também ser informantes inconscientes) e também os chamados colaboradores ideológicos (em tcheco: ideospolupracovníků) que eram os cidadãos da Tchecoslováquia, membros do partido comunista, que trabalhavam no exterior e colaboravam de forma consciente com o serviço de inteligência da StB, ou seja, colaboradores ideológicos, de fato, eram agentes. Eis a situação em 5.5.1963

A tabela apresenta todas as rezidenturas na América Latina; a fonte é um documento elaborado pela StB para o chefe da seção 2 do departamento I.

*Na coluna Agentes inclui-se o número de colaboradores ideológicos (4ª coluna).

A tabela mostra que, antes do golpe no Brasil (ano 1964), foi justamente a rezidentura no Rio de Janeiro (juntamente com suas filiais em Brasília e São Paulo) que alcançou, pelo menos em número, os melhores resultados entre todas as rezidenturas na América Latina. Esta avaliação não inclui a rezidentura em Havana, que trabalhava em condições totalmente diferentes, já que, neste caso, tratava-se de um ambiente amistoso, aliado; não como um alvo operacional como os outros países da América do Sul e Central. Certamente seria mais interessante caso a tabela ainda tivesse uma coluna com a quantidade de oficiais de carreira do serviço de inteligência que trabalhavam em cada rezidentura de todos os países da América Latina. Isso nos possibilitaria uma avaliação ainda mais precisa de seu trabalho. No presente momento não possuímos esses dados. Por enquanto, somente é sabido que, no Brasil, à época, trabalhavam 5 oficiais da StB, dos quais três no Rio de Janeiro, e dois, um criptógrafo e um funcionário, que foram alocados no consulado de São Paulo. Um dos funcionários que trabalhavam no Rio viajava regularmente para a nova capital, Brasília. Conhecemos os codinomes de todos os agentes, figurantes, contatos secretos e colaboradores ideológicos em todos os países da região observada, a América Latina. Esta era a situação registrada em 5.5.1963. Como comparação: no ano de 1959, no Brasil, os oficiais da StB comandavam 10 agentes, “trabalharam” 9 figurantes e aproveitaram a ajuda de 6 colaboradores ideológicos. Neste ano, no Rio de Janeiro, também havia 3 oficiais operacionais da StB.

Após o golpe de 1964 ocorreram mudanças, todos os dados estatísticos sobre o Brasil pioraram, o ambiente para o trabalho dos agentes, de amistoso tornou-se hostil, pois o golpe foi feito por forças militares com orientação de direita, que (ao contrário dos governos anteriores) não menosprezava o perigo comunista.

Em 1963, no Brasil, trabalhavam os seguintes funcionários de carreira da StB: Peterka, Skořepa, Moldán (estes são codinomes, os nomes verdadeiros são: Kvita, Stehno, Mejstřík). Quanto aos figurantes trabalhados, podemos dizer que 2 deles tornaram-se contatos secretos em um período seguinte, mas, ao final, a aquisição dos mesmos foi interrompida. Em um dos casos, o figurante, a pedido de Moscou, foi passado para a KGB, e assim foi feito, mas logo após o golpe de 1964 veio a falecer; quanto ao segundo caso o trabalho sobre o figurante foi interrompido pelo golpe. O dito figurante emigrou para a Iugoslávia. Tentou, é verdade, adquirir asilo político na Tchecoslováquia, mas a StB negou o pedido argumentando que o figurante seria útil ficando entre os demais emigrados políticos brasileiros no Uruguai. Este plano não funcionou, pois Belgrado, neste caso, mostrou uma face mais amigável do comunismo. No período próximo ao golpe de estado, o dito figurante era um dos contatos de maior valor da StB no Brasil.

O período anterior ao golpe de 31 de março de 1964 pode ser, sem dúvida, classificado como um período positivo no que diz respeito aos sucessos das operações da StB no Brasil. A tabela demonstra, não entrando em detalhes sobre outros países da América Latina, que a rezidentura no Rio alcançou, nesta época, os melhores resultados. Logicamente, não se pode excluir a possibilidade de que rezidenturas com menor número de funcionários, por ex., no México ou na Argentina, não pudessem, do ponto de vista do serviço de inteligência, ser bem producentes. Mas, por enquanto, nada aponta para isso. Seja como for, é claramente visível que o Brasil, aos olhos da StB, não era somente o maior país do continente, mas também, o mais importante. Objetivamente, é esse panorama geral dos números.

Vladimír Petrilák

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