As operações ideológicas da StB na América Latina

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Instruções do serviço de inteligência comunista da Tchecoslováquia sobre o sentimento antiamericano em vários países da América Latina. Ano de 1963.*

*Título do documento de número de registro 80812, pág. 221, encontrado no aquivo da StB em Praga.

A diretoria da seção dedicada à América Latina do serviço de inteligência da Tchecoslováquia, a StB, no final de novembro de 1963, enviou instruções destinadas a todas suas rezidenturas (suas bases no estrangeiro) nos países da América Latina. Logo no início do documento, a diretoria afirma que havia realizado uma análise sobre as lacunas do trabalho no que diz respeito às operações ativas e que chegou à conclusão de que esse trabalho se caracteriza por uma certa casualidade e falta de sistematização.

A diretoria não pretendia somente criticar o trabalho de seus oficiais de carreira na América Latina, mas o objetivo dessas diretrizes era o de corrigir as suas ações para que elas não fossem superficiais mas sim capazes de: acertar na mosca, o que significava instigar as naturais e imperceptíveis animosidades existentes entre os países da América Latina e os EUA, e que essas por meio de operações adequadas fossem revigoradas.

A seção para a América Latina da StB, com esse propósito, demonstrou interesse nas animosidades, as quais servem como sólo fértil [fonte] a esses sentimentos antiamericanos para uma gama bastante ampla de pessoas em cada um dos países da América Latina. Quanto a essa animosidade, seja de caráter político, econômico, territorial, ideológico ou qualquer outro, tem na sua essência a política gananciosa e imperialista dos EUA sobre países da AL…. E conforme seguimos adiante na leitura do documento, vemos que a essência dessas animosidades torna-se visível em diversos tipos de incidentes, acontecimentos ou escândalos, que incitavam esses sentimentos em países da América Latina.

O que mais interessava à StB, segundo o documento, era de que maneira exatamente esses conflitos se manifestavam em cada país e quais eram as possibilidades para que isso fosse aproveitado no âmbito de operações ativas. Quais dessas animosidades possuíam maior ressonância social ou – de modo diverso – quais delas ainda não haviam chegado à opinião pública e, com uma pequena intervenção, poderiam tornar-se conhecidas e amplamente comentadas.

Registro nº. 80812, p. 221.

Por isso, foram organizadas tarefas concretas para toda a rede de agentes e base de contatos, para que elaborassem relatórios sobre os sentimentos antiamericanos nos países onde atuassem, com base nos seguintes pontos:

1. Quais são os motivos históricos e contemporâneos de sentimentos antiamericanos no país;

2. Quais são os acontecimentos, incidentes ou escândalos concretos que nos últimos tempos mais foram motivo para que os sentimentos antiamericanos no país aumentassem;

3. Por acaso sabem sobre conflitos, ações ou pressões por parte dos EUA que por algum motivo não sejam de conhecimento geral, mas que depois de revelados levariam a um aumento dos sentimentos antiamericanos;

4. Em quais camadas da sociedade os sentimentos antiamericanos são mais fortes e por quê.

Ao fornecer tarefas para as rezidenturas do outro lado do oceano, a central em Praga deu a entender que, para cumprir estas tarefas, não era necessário realizar nenhum tipo de operação especial. Tratava-se mais de que cada agente, segundo as suas experiências, elaborasse um relatório. A central concluiu que como a nossa rede de agentes contém os mais diferentes tipos de pessoas em diversos países, esta operação poderá nos oferecer uma visão interessante, que certamente tornar-se-á nossa fonte de inspiração.

Registro nº. 80812, p. 222.

Como podemos ver acima, os sentimentos antiamericanos na América Latina, é verdade, sempre existiram; mas o serviço de inteligência comunista da Tchecoslováquia pretendia (e assim o fez) incitá-los, vitalizá-los, exacerbá-los, ampliá-los – e isso através de suas próprias ações operacionais. Essas atividades premeditadas tinham como objetivo (o exemplo de Cuba demonstra que este objetivo era, pelo menos potencialmente, realizável) levar a uma reorientação política e geopolítica dos países do continente, países que, em razão de seu posicionamento geográfico e sob uma grande influência de Washington, pudessem estar sujeitos pelo menos a um desequilíbrio nas relações com os EUA. Certamente essas relações eram assimétricas, o que criava um motivo a mais para a tentativa de abalá-las. A Tchecoslováquia socialista, sendo uma leal aliada (para ser mais exato: um fiel servo) da União Soviética, contribuía ativamente (principalmente através de seu serviço de inteligência) para o enfraquecimento da posição dos EUA na América do Sul – não por ter algum interesse próprio quanto a isso, já que as relações diplomáticas e comerciais com estes países não indicavam que Praga pudesse sequer imaginar em tomar o lugar dos EUA. Era claramente uma tarefa que interessava a Moscou e ao “proletariado mundial”, ergo… à URSS. Sendo assim, podemos ver que a StB de Praga era um prolongamento do braço da KGB de Moscou.

A StB fazia um esforço para realizar as pretensões soviéticas, criando artificialmente no continente americano algo que pudesse causar ou reforçar os sentimentos antiamericanos, formando assim uma situação conveniente para a entrada de um parceiro alternativo – que nessa época seria a União Soviética ou … a China. Segundo os relatórios da StB, sabemos que naqueles tempos os chamados movimentos nacional-libertadores armados que atuavam clandestinamente na AL, realmente recebiam apoio não somente de Havana, mas também de Pequim e Pyongyang (capital da Coréia do Norte). Naquela época, Moscou (e por isso, também Praga) não queria que a sua política, tanto a oficial como também a não oficial, tivesse alguma relação com apoio ativo para movimentos guerrilheiros nesta região. É claro que ao mesmo tempo Moscou e Praga apoiavam grupos armados na Ásia e na África, mas no que diz respeito à América do Sul, tudo indica que esta forma de ajuda para terroristas “nacional-libertadores” era fornecida por Cuba, China e Coréia do Norte. Isso parece confirmar a tese apresentada pelo antigo espião soviético que fugiu para o Ocidente, Anatoliy Golitsyn, que em seu livro New Lies for Old, publicado em 1984 (Meias Verdades, Velhas Mentiras, traduzido no Brasil pela Vide Editorial), afirma que, no âmbito de uma grande operação de desinformação planejada, foram criadas falsas divergências entre o comunismo chinês e o soviético, mas, com base nas decisões secretas no final dos anos 50, de fato foi feita uma política comunista coordenada que consistia em uma certa divisão de trabalho, sendo que esta divisão foi mantida em segredo. Em outras palavras – oficialmente existia uma divisão entre Moscou e Pequim, no que o mundo inteiro acreditou, mas, não oficialmente, foi realizada uma política que foi combinada e que se auto complementava. Como se sabe, naqueles tempos, a grande maioria dos grupos guerrilheiros seguiam uma ideologia comunista próxima ao maoismo. Essa era uma manifestação bem radical de atitude antiamericana e, sendo assim, também estava de acordo com o cenário realizado pela StB, mesmo que Praga, inclusive em suas próprias atividades secretas, não apoiasse esta forma de “sentimentos antiamericanos” – aqui nos referimos concretamente à AL. Entretanto, Praga apoiava ativamente ao regime de Havana e, este… sem nenhum tipo de escrúpulos, fornecia armas aos guerrilheiros, o que a StB sabia muito bem. Sendo assim, ao que parece, a tese provocadora e bem audaciosa de Golitsyn é bem justificada.

Através da leitura das pastas da StB, sabemos sobre algumas específicas operações ativas, que eram consequência das instruções acima citadas – ou seja, em base aos materiais reunidos, foi realizada uma operação que tinha como objetivo, por exemplo, desabonar o diplomata americano e, graças a ela, os sentimentos antiamericanos foram revigorados. Esta ação foi uma operação bem sucedida de desinformação executada pela StB e tinha como alvo uma pessoa em concreto (Thomas Clifton Mann), com base em informações falsas elaboradas em Praga e que foram apresentadas como sendo de autoria do próprio Thomas Clifton Mann. Encontramos mais casos como esse, como exemplo, foi usada até mesmo a questão de um café artificial, o que especialmente no Brasil – que na época dependia fortemente da produção e exportação dessa commodity – era um tema delicado. O serviço de inteligência tchecoslovaco colocou em circulação a informação de que os americanos pretendiam lançar no mercado um tipo de café totalmente artificial, com o objetivo de destruir este importante ramo da agricultura brasileira. Isto deveria causar desconfiança contra Washington nos círculos dos grandes plantadores de café. Dessa maneira, foi feito um esforço para manipular os sentimentos da burguesia nacionalista, que então no Brasil era muito influente. Neste caso, os dados reais sobre a produção de café instantâneo foram levemente modificados, causando confusão com a ajuda da tese de que o café natural já não era mais necessário.

Como podemos ver, para a realização de guerra ideológica foram usadas mentiras, manipulações e desinformação. Tentava-se incitar e aumentar os sentimentos antiamericanos existentes, modificando assim as suas reais dimensões, ou inclusive criando algo que na realidade não existia. Voltando à tese de Golitsyn, existe ainda uma coisa para refletir – enquanto os métodos “cubano-chineses” demonstraram ser pouco eficazes (trata-se da eficácia da luta de guerrilha, ações terroristas de diferentes grupos), os resultados de ações mais sofisticadas dos serviços de inteligência comunistas da linha de Moscou estão presentes no continente até hoje. Logicamente, não se pode ignorar (em muitos casos) nem a política mal sucedida dos EUA, nem os erros de Washington que muitas vezes beiram à idiotia, mas é uma questão para analisar se por acaso erros como esses, em condições normais, seriam suficientes para formar uma opinião generalizada tão negativa, como essa que os EUA possuem na América Latina até hoje. Não é possível, pois, negar o fato de que neste campo houve a atuação ativa de pelo menos alguns serviços de inteligência comunistas, com a KGB e a StB, ambos na linha de frente.

Vladimír Petrilák

 

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6 thoughts on “As operações ideológicas da StB na América Latina

  1. Vou ajudar, sim. Assisti com entusiasmo a todos os vídeos do canal de vocês no YouTube. Se eu falasse tcheco ou polonês ajudaria a traduzir os arquivos da StB, mas os idiomas eslavos são os mais difíceis que já inventaram hahaha. Um abraço.

  2. Vou divulgar!!! Espero que vocês possam transformar isso em livro!!! O Brasil nao aguenta mais a loucura esquerdista!!!!!! Obrigada!!

    1. Obrigado por comentar. Pedimos que nos ajude a divulgar para assim aumentarmos a possibilidade de financiar nosso projeto.

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