Relatório ultra-secreto sobre o 31 de Março de 1964

Compartilhe:
*Fragmento do livro 1964 O Elo Perdido. O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista. Capítulo XX – 1963-1964 – O GOLPE: ANTES, DURANTE E DEPOIS.
Antonín Novotný, Primeiro-Secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia de 1957/1968, e Nikita Khrushchov, Primeiro-Secretário do Partido Comunista da União Soviética de 1953/1964.

Nos acervos de documentos do gabinete de Antonín Novotný, primeiro-secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia, existe uma análise elaborada para o Comitê Central com o título: “Motivos da vitória do golpe brasileiro e a situação atual”. Esta análise foi elaborada por um autor desconhecido, mas o fato de ter sido enviada à autoridade mais importante na Tchecoslováquia significa que foi o material com mais credibilidade na época. É certo que o autor tinha acesso tanto aos materiais da StB como a informações da embaixada e do partido comunista brasileiro. Provavelmente, foi redigi­do pelo agente Mané – Miroslav Štráfelda, correspondente da Agência de Imprensa Tchecoslovaca no Brasil, expulso do país em maio de 1964. Era comum a prática de correspondentes das mídias comunistas escreverem textos especiais destinados apenas a leitores selecionados — para a diretoria do partido, diretoria da agência de imprensa ou do jornal para o qual tra­balhavam – com informações objetivas que, obviamente, não chegavam à opinião pública. É esse também o caso de “Motivos da vitória do golpe brasileiro…”.

Arquivo Nacional da República Tcheca.

O documento era ultra-secreto, destinado somente à elite partidária. O estilo — quase literário — no qual foi escrito, em 9 de junho de 1964, parece confirmar a hipótese sobre o autor, assim como alguns fragmentos do material, em que o tal cor­respondente é citado de maneira sugestiva. No segundo período do texto, podemos ler as seguintes palavras dramáticas:

“Praticamente sem nenhum disparo (…), sem qualquer tipo de manifestação da vontade do povo, Goulart, juntamente com toda a esquerda brasileira, foi nocauteado em um prazo de 24 horas. Igualmente rápidos e surpreendentes foram o contra-ataque, as perseguições e a liquidação de tudo o que era, pelo menos, levemente esquerdista…”.

Entre os motivos mais importantes do desenrolar destes acontecimentos, o autor inclui:

  1. A “Hesitação típica de Goulart e a sua incapacidade de levar as coisas até o fim”, são seguidas pela descrição da reação da imprensa “(…) Em vez de uma ordem imediata para a luta, em vez de conduzir o povo trabalhador para as ruas e convocar um levante nacional, em vez de armar os trabalhadores imediatamente, a rádio do governo, até quando ali apareceram alguns oficiais e bateram no locu­tor, transmitia somente juramentos patéticos de lealdade a Goulart, o que não ajudou em nada o confronto contra as bazucas e tanques dos oficiais”. Em vez de irem à luta, os trabalhadores jogavam bola, acreditando que Goulart resolveria tudo por eles. Na opinião do autor da análi­se, esta imprudência foi uma característica de todos — inclusive dos ativistas partidários.
  2. Houve uma confusão entre duas atitudes diferentes. Uma coisa era o sentimento das massas — claramente esquer­dista — e outra era a verdadeira vontade e organização para a luta. Ele também culpa o partido comunista por esse equívoco, e calcula que as maiores manifestações da esquerda, em um Rio de Janeiro com 3.6 milhões de habi­tantes, reuniram no máximo 10 mil pessoas – foi o caso da manifestação de 1º de maio de 1963. Ao escrever o traba­lho, anotou com ironia que várias vezes havia visto pique­tes da esquerda em que a tribuna com os ativistas era mais numerosa do que as pessoas reunidas diante dela.
  3. A base da falência da esquerda foi a sua falta de orga­nização. “Não se podia sequer falar em derrota, pois a derrota pressupõe uma luta, e no Brasil houve so­mente uma tomada pacífica de poder pela direita”. O regime de Goulart garantia liberdade para os dois la­dos, e a esquerda (PCB, UNE, CGT, frente parlamentar nacionalista, Ligas Camponesas e Brizola), que tinha pos­sibilidades de se organizar e tinha o apoio silencioso do governo, brigava entre si pelo posto de liderança em vez de fazer um trabalho efetivo de organização. Um exem­plo da indisciplina fundamental é nenhuma reunião par­tidária começar no horário marcado. O atraso costumava ser de duas horas: metade das pessoas já haviam saído, enquanto a outra metade estava chegando. Essa estava longe de ser a mesma capacidade de organização do Par­tido Comunista da Tchecoslováquia, que, em fevereiro de 1948, efetuou o golpe de estado com bravura.
  4. O “deslocamento militar de forças” falhou. Goulart su­bestimou o papel dos oficiais nas forças armadas, e, atra­vés de sua atitude pouco decisiva, fez que as forças arma­das também não ficassem a seu lado de forma decisiva.

Além desses quatro pontos, o autor do relatório também fez referência às possíveis influências externas:

“No exílio, Goulart disse que as influências estrangeiras cumpriram um papel decisivo. Eu acho que essa é uma desculpa barata para ele e para a esquerda, mesmo que o tema certamente existisse. As condições externas sempre agem através das internas. Caso — assim como os informantes nos garantiam o tempo todo — uma massa de 40 milhões de brasileiros levantasse para a luta, os truques diplomáticos do exterior não serviriam de nada. Dizem que, nos dias críticos, funcionários da embaixada americana caminharam pelas ruas e ofereceram aos oficiais maços de dezenas de milhares de dólares para que passassem para o lado da reação. Talvez tenham sido feitos outros movimentos mais elaborados, sobre as quais ainda não se sabe. Mas é fato que os motivos principais devem ser procurados na situação interna”.

Carlos Lacerda na defesa do Palácio da Guanabara durante o 31 de Março.

A falta de decisão e de vontade para a luta são também descritas no seguinte fragmento:

“Enquanto o governador Lacerda construiu uma barricada em seu palácio com a ajuda de veículos para transportar lixo e com dois revólveres e uma pistola automática, permanecendo ali com a sua Secretária de Serviços Sociais, Sandra Cavalcanti, durante 52 horas, a fortaleza-chave Copacabana, leal a Goulart, foi conquistada da seguinte maneira: aproximadamente às 15 horas chegou ali, de Volkswagen, um sub-coronel, sozinho. Desceu do carro com um revólver na mão esquerda, com a direita deu um tapa no rosto do soldado que estava de guarda, entrou, entendeu-se com os oficiais e… a fortaleza caiu. Este foi um sinal para os oficiais do I Exército, para que passassem para o lado da contra-revolução”.

Na parte seguinte do relatório existe uma observação referente à estrutura do novo governo, que naquele momento ainda não estava completamente estabelecida. O autor incluiu entre os inspiradores do golpe o governador Magalhães Pinto (Minas Gerais), e não falou muito bem da polícia, que começou a perseguir a oposição de esquerda. Um acontecimento exem­plifica a incapacidade dos policiais:

Livro Em Cima da Hora, traduzido por Carlos Lacerda.

“A polícia política é composta de analfabetos políticos! Em 30 de abril foi preso Ribeiro, um vendedor de livros do Rio de Janeiro, porque tinha em sua loja um livro anti-soviético chamado: Em cima da hora, traduzido pelo próprio Lacerda. Ele foi preso porque na capa do livro havia o martelo e a foice”.

 

Vladimír Petrilák

 

Relatório sobre o Golpe Militar de 09/06/01964 (1ª folha). Arquivo Nacional da República Tcheca, nº do acervo: 1261/0/44, Partido Comunista da Tchecoslováquia – Comitê Central – Gabinete do primeiro secretário do comitê central do partido comunista da Tchecoslováquia.

 

Compartilhe:

24 thoughts on “Relatório ultra-secreto sobre o 31 de Março de 1964

    1. Vamos aguardar o documentário do Brasil Paralelo que será lançado do dia 31 de março deste ano. Mas dizer que não houve apoio popular para a intervenção do Senado Federal é muito apaixonado esse discurso.

  1. Esse livro é um divisor de águas, entre a verdade histórica e as metiras comunistas, ou seja não havia porcaria nenhuma de Cia, os milicos se viraram sozinhos, surpreenderam os gringos é chutaram a bunda dos covardes comunistas que fugiram como ratos que são.

    1. Quem diz que a CIA estava envolvida são os documentos da própria CIA. Deram apoio moral, logístico, garantias legais e ofereceram apoio militar. Os relatos acima é que mostram que não havia qlqr ligação de Goulart e seus assessores com o governo da URSS.

      1. Onde estão esses documentos? Estão publicados aonde? São de fonte primária?

        Ladislav Bitmann, um ex-agente da STB, afirma e confirma que o suposto apoio da CIA ao “golpe” foi fabricada pela própria STB (que atuava em nome da KGB no Brasil, por não haver relações diplomáticas entre Brasil e URSS na época), em uma operação de desinformação contra os EUA.

        Como ele sabe disso? Ele foi o agente que inventou e divulgou essa história, que é repetida até hoje para as crianças indefesas.

        O livro em que confessa ser o agente responsável por essa operação de desinformação se chama “The KGB and Soviet Disinformation”, que, por conveniência, os comunistas não permitiram ser publicado no Brasil. Vc pode encontrá-lo em pdf na internet.

        1. Quem é Ladislav Bitmann? Aliás, qual o respaldo científico que tem essa “afirmação” dele frente as pesquisas de Elio Gaspari, Carlos Heitor Cony, Boris Fausto, Jacob Gorender, Thomas Skindmore, Florestan Fernandes, Gilberto Cotrim, Afonso Scocuglia, José Murilo de Carvalho, entre outros?

          Engraçado, no se refere a temas como a Ditadura Militar do Brasil (1964-1985) ou o Nazismo mesmo, pessoas, por ideologia e alienação, tentam desconstruir os fatos (comprovados pela própria história), que são fatores da construção histórico social de um povo, lugar, etc.

          1. HAHEUHAUHEAHEUAHUEHAHE

            “pesquisas de Elio Gaspari, Carlos Heitor Cony, Boris Fausto, Jacob Gorender, Thomas Skindmore, Florestan Fernandes, Gilberto Cotrim, Afonso Scocuglia, José Murilo de Carvalho”

            O Ladislav tava lá… mas vale a “pesquisa” de esquerdistas décadas depois!

          2. Independente de que seja o autor/pesquisador, necessita-se de fontes e provas factuais antes a acusar os EUA de interferência. Acusar por acusar, qualquer um acusa. Não documentos que corroborem com a tese da interferência americana, o que houve foi no máximo um apoio moral.

          3. Interessante que o senhor não tenha sido capaz de citar uma única fonte primária que seja – cita de ouvir falar, melhor dizendo de ler fontes indiretas – para contradizer o depoimento do agente Tchekoslováco, que por acaso, era o chefe de operações da Alemanha oriental em 1968…

          4. Interessante.As teses de esquerda jamais precisam ser conformadas.Documetos históricos que as contestam, precisam de todas as confirmações possíveis e jamais são aceitas pela esquerda.Você pagam consultoria a raposa para ela ensinar a defender galinheiro.Bisonhos, é o nome.

          5. a história é construida por documentação e não por relatos, você pode achar o que bem quiser, mas o papel está ali para te provar de que estás errado

          6. está achando que é tudo mentira, vai lá na biblioteca Techo Slovaca e pesquise sobre os documentos, são públicos, se quer desmerece-los, prove a todos nós que estamos errados, a esquerda não desmentiu nada disso porque sabe que é VERDADE, a maior arma contra a esquerda é a verdade, é jogar os fatos na cara de esquerdista safado e mentiroso

    2. Kkkkkkkkkkkkkkk direitista cai muito fácil maluco.

      Quem me garante a veracidade de toda essa bobagem escrita? Qual revista científica quali 1 publicou ou atestou essa merda??

      Mais fake news

      1. É inacreditável o esquerdista, está vendo as provas e pergunta onde estão as provas… Aproveita a ausência de massa encefálica e se suicida, cara!

      2. A formulação de seu comentário deixa explícito que você não passa de um analfabeto político e funcional.
        Sua risada é a risada de uma hiena.

  2. Tive a impressão que a maior parte das forças armadas da época eatava com a esquerda? Como parece que está nos dias atuais.

  3. Deveras interessante esse artigo.
    Cabe ressaltar que não temos informações fidedignas sobre o assunto.
    É importante ressaltar que naquela época tínhamos poucos interessados no comunismo no Brasil.
    Nós mesmos brigavamos com a polícia por farra.

  4. Há um bom livro de Phyllis R. Parker, de título “1964: o papel dos Estados Unidos no golpe de estado de 31 de março”, editado em 1977 pela Civilização Brasileira.

  5. O documento é uma analise da conjuntura politica do brasil na época. Ele não revela nenhum plano contra a democracia brasileira. Leiam o documento ao invés de acreditarem no q os outros falam.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *