Tarefas do rastreador na rezidentura Rio de Janeiro

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O camarada “Radil”.

Na pasta  de correspondência operacional nº de registro 80398 (subpasta 011/4/6, páginas 225 e 226) há um documento descrevendo o Plano pessoal para o camarada Radil no período junho-dezembro  1966 . Este plano foi elaborado pelo residente, ou seja, o chefe da rezidentura (codinome Pomezný) no Rio de Janeiro,  depois do encontro com o “rastreador” ou camarada “Radil”. O plano foi enviado em 24.5.1966 para ser avaliado pela central do serviço de inteligência em Praga.

O camarada “Radil” (trata-se de codinome, o nome real era: Jan Říha) era um confeiteiro profissional que no ano de  1950 entrou no StB e tornou-se rastreador, chefe dos grupos de investigação, e em 1964 foi reclassificado para o I Departamento,  isto é, para o serviço de inteligência no exterior. Logo em seguida, fora enviado para a rezidentura do Rio de Janeiro, onde oficialmente exercia a função de “porteiro” da embaixada, porém, na realidade, era membro da central do serviço de espionagem, com a função de rastreamento e apoio às atividades dos agentes. Lá ele trabalhou até 1968, e mesmo depois de retornar a seu país, foi rastreador até 1975 quando foi vitimado por um enfarte, se aposentando no ano seguinte por invalidez.

Chegou ao Rio sem conhecer a língua e aprendeu o português somente  in loco. Foi avaliado como um bom rastreador e, aparentemente, a sua boa qualificação influenciou no fato de ter sido enviado ao Brasil, onde, por motivo do golpe da direita em 1964, as condições de trabalho dos espiões tchecoslovacos ficaram mais difíceis. Pois até o golpe de 31.3.64, os espiões tchecoslovacos, sob a cobertura das funções diplomáticas, se movimentavam livremente sem que fossem seguidos pela polícia local.  O golpe porém causou uma mudança radical – o regime militar era extremamente anticomunista e começou a observar cuidadosamente a atuação das embaixadas dos países socialistas.  Era necessário então garantir e dar segurança ao trabalho dos agentes  em condições mais difíceis, e exatamente essa era a tarefa do camarada “porteiro”, ou “Radil”.

Vamos analisar  mais de perto o conteúdo das atividades do “porteiro”. Este documento nos possibilita conhecer em detalhes o trabalho dos espiões tchecoslovacos no Brasil. Segundo o plano de trabalho, entre as tarefas assinaladas ao camarada “Radil”, estavam as seguintes:

  1. conferir os trajetos de inspeção, aos locais PS (předávacích schůzek = pontos de entrega) e MS (mrtvých schránek = caixas mortas) determinados pelos membros da rezidentura, do ponto de vista de sua conveniência, segurança e vulnerabilidade;
  2. verificar os locais de encontro do ponto de vista da segurança – de acordo com as necessidades dos funcionários da rezidentura;
  3. verificar se os agentes não são seguidos no trajeto – conforme a necessidade;
  4. defender o órgão de representação (prédio da embaixada no Rio de Janeiro);
  5. procurar possíveis pontos de apoio para investigação no entorno da sede do órgão de representação;
  6. assumir toda a responsabilidade pela câmara escura da rezidentura e seu equipamento, executar todos os trabalhos com fotos, conforme a necessidade dos funcionários que trabalham na rezidentura;
  7. fazer fotos sigilosas dos objetos alvo no país a pedido do residente.

Entre outras tarefas estavam:

Procurar por conta própria trajetos de rastreamento, o que incluía controle a pé combinado com meios de transporte público coletivo entre o órgão de representação e o centro da cidade, verificação dos meios de transporte público entre o bairro Flamengo no sentido Leblon, trajeto de investigação com automóvel da rezidentura, com três pontos de controle e local para verificação. Planejar o trajeto e pontos de controle, ou seja, o “timing” do deslocamento de um ponto a outro, a fim de coordenar a ação de dois espiões. Trajeto completo da investigação do órgão de representação até o centro da cidade. Para cada trajeto deveria providenciar o plano completo documentado.

Também deveria procurar novos locais de contato no centro da cidade, no bairro Copacabana (com elaboração de documentação completa) e em seguida procurar novos locais para encontros de entrega, no bairro do Leblon, Jardim Botânico e no bairro Botafogo.

No que toca às caixas-mortas, deveria encontrar os locais adequados para esconde-las com material no tamanho de 1x15x20cm, e cinco novos locais para colocar MS magnéticos.

Outra tarefa era seguir pessoas de interesse da rezidentura. Nesse sentido, deveriam se concentrar no cidadão americano chamado Frank Gilman, que morava nos arredores da embaixada, e descobrir com que frequência ele recebia visitas, listar as placas dos carros das visitas, marcar o horário que saia para o trabalho e sua volta, inclusive seus acompanhantes. Determinar o número de membros de sua família, número de empregados, quem são, se na casa foram feitos reparos técnicos e, em caso afirmativo, se foram feitos por empresa brasileira. Elaborar relatórios mensais do monitoramento. Também deveriam investigar o cidadão americano chamado Kennon, que morava acima do apartamento de outro camarada da embaixada tchecoslovaca. Nesses casos, tratava-se de determinar se são funcionários do serviço de inteligência americano e se não foram colocados nas proximidades dos diplomatas tchecoslovacos com o propósito de investigá-los.

Além disso, o plano de trabalho continha  execução de fotografias sigilosas dos seguintes objetos:

  • sede do SNI, estacionamento dos carros do SNI, pessoas  (na sede do Ministério da Fazenda)
  • sede Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP) ( Instituto de cegos) [trata-se provavelmente da sede do Instituto Benjamin Constant, no bairro da Urca – nota do autor]
  • sede da polícia nos endereços das ruas: Av. Atlânitica, Av. Copacabana e Rua Francisco de Sá

Também deveria focar a embaixada tchecoeslovaca, verificar todas as salas ao acaso, para ver se ninguém está escondendo máquinas de escrever, controlar fitas de gravador, papel carbono, relatórios etc. E principalmente focar na sala da secretária  de língua estrangeira e a sala de recepção, para verificar se não estava instalado equipamento de escuta.

O último ponto era que devia dedicar-se ao estudo do português.

No anos 60, ser porteiro da embaixada tchecoslovaca no Rio de Janeiro não era um trabalho nada fácil.

 

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One thought on “Tarefas do rastreador na rezidentura Rio de Janeiro

  1. Inacreditável como a espionagem acontecia sob as barbas do regime militar e quase nada era divulgado à opinião pública. Felizmente as investigações historiográficas estão prosseguindo para o bem da reparação de um dos mais nebulosos períodos da nossa história republicana.

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