Rubens Paiva, um esquerdista radical nos documentos da StB

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Deputado Rubens Paiva.

Nos arquivos da StB em Praga, encontramos a pasta de objeto nº 11.778, intitulada Pessoas da vida política e econômica no Brasil. Nela, há duas cartas com relatórios oficiais sobre o político brasileiro e ex-deputado federal do PTB, eleito em 1962, Rubens Paiva. Ambos os relatórios foram escritos em 27 de março de 1964 por um oficial do serviço secreto comunista tchecoslovaco, que operava no Brasil, de codinome MOLDÁN.

O conteúdo do relatório mostra que MOLDÁN [ou melhor, Josef Mejstřík], se interessou por esse notório membro do parlamento. Tendo o auxílio da jornalista comunista Maria da Graça Dutra, e dos agentes LOSADA e LENCO, fora feito um mapeamento do espectro ideológico de muitos deputados brasileiros, a fim de se saber a respectiva orientação política de cada parlamentar. O motivação que levara Moldán a conduzir esse trabalho não se tratava de nenhuma tarefa de inteligência em específico, mas de um pedido oficial feito pelo embaixador tchecoslovaco no curso de suas atividades diplomáticas legais. No entanto, todas as informação colhidas sobre Paiva foram envidas à sede da inteligência de StB, pois, por óbvio, aquele conteúdo adquirido, mais cedo ou mais tarde, poderia ser útil.

Vamos ver o que o espião tchecoslovaco escreveu sobre este deputado.

Rubens Paiva, membro do PTB,

um dos vice-presidente em uma das comissões parlamentares na Câmara. Pertence a uma ala mais esquerdista do partido, integra o denominado “Grupo compacto”, que reúne os deputados mais radicais dos partidos do PTB, PSD e UDN, que estão sob a influência da PCB, juntamente com a esquerda mais radical.

Rubens Paiva é conhecido como deputado radical esquerdista, mas não se diz  comunista.

(…)

Eu o conheci no ano passado, em algum momento no final de maio durante minha visita à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, ele me foi apresentado junto com outros membros dessa comissão.

Então eu passei a encontra-lo por minha própria iniciativa enquanto estava no parlamento (…) com o passar do tempo, nos tornamos amigos e o contato estava em tal estado que poderia ser desenvolvido.

Eu verifiquei isso mais cedo com a ajuda de Maria da Graça Dutra, LOSADA e LENCO, juntamente com muitos outros nomes … Todos os três responderam em uma avaliação consistente sobre R.P. como sendo um nacionalista radical, combativo político. Aparentemente ele não é membro da PCB.

Na segunda nota de MOLDÁN, datada do mesmo dia, a informação acima fora completada. Ele escreveu que estava convencido de que poderia usá-lo para realizar operações ativas envolvendo sua atuação no parlamento. Até então, ele não foi usado porque, durante os dias em que executada  a AO TORO,  não estava presente no parlamento (Para saber mais sobre LOSADA, LENCO e a AO TORO, veja o capítulo XV do nosso livro, 1964 O Elo Perdido. O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista, sobre a AO LUTA).

O agente tcheco avisa que o contato com o deputado se intensificará e, de acordo com os resultados, ele verá se poderá desenvolvê-lo.

Como é fato, a pretensão de recrutamento acabou não se realizando. E sabemos o porquê, pois os documentos são datados de 27 de março de 1964…

Vladimír Petrilák

 

Embaixada da Iugoslávia, em 1964; entre eles, Rubens Paiva (3° da dir. para a esq.); o secretário de imprensa de João Goulart, Raul Ryff (de cabelos e bigode branco, ao centro), e Almino Affonso (2° da esq. para a dir.).

 

 

Relatório do agente MOLDÁN.

 

Relatório do agente MOLDÁN.
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