O contato confidencial “Alonso”, mais um caso de um jornalista com quem, além da StB, também mantinha contato a KGB, a agência de inteligência soviética.
Tratava-se do relativamente conhecido e estimado jornalista mexicano José Natividad Rosales (1918–1976), também conhecido pelo apelido de Paprika. No México, ele é citado como exemplo para estudantes de jornalismo; supostamente, era um jornalista incisivo, até mesmo ousado, para quem nada era sagrado. Ficou famoso, entre outras coisas, por ter conduzido entrevistas, por exemplo, com o papa Pio XII, Mao Zedong e Fidel Castro. Escreveu vários livros, mas a enciclopédia online de literatura mexicana não traz nenhuma informação sobre ele; veja a captura de tela:

A partir da documentação mantida pelos serviços secretos da Tchecoslováquia, obtemos um quadro um pouco diferente. Ele era corruptível (e por pouco), flexível — gostava de publicar desinformações descaradas e, do ponto de vista dos serviços secretos, acabou sendo considerado pouco confiável.
Os espiões tchecoslovacos trabalharam com ele de 1961 a 1970; ele participou da execução de uma série de ações ativas (que geralmente realizava no semanário SIEMPRE, onde trabalhava na época), pelas quais era recompensado principalmente com bebidas alcoólicas e cigarros americanos. Ele mesmo solicitava bebidas para diversas comemorações diretamente ao seu oficial de controle. Ocasionalmente, recebia também ajuda financeira; suas despesas relacionadas à execução das ações ativas eram reembolsadas. O colaborador “Adam” afirmava que ele era sexualmente pervertido. Outro contato da residentura, o Dr. Estrada Villa, chamou a atenção da inteligência tcheco-eslovaca para Rosales, pois, na opinião dele, Rosales era adequado para a realização de ações ativas na imprensa.
O fato de Natividad Rosales não ser ingênuo nem tolo é comprovado por um registro de 1963, quando, durante a explicação de mais uma ação que deveria ser realizada pelo contato na revista semanal SIEMPRE, o agente de inteligência percebeu “alguns momentos interessantes”:
“… algumas vezes ele me perguntou discretamente qual era a nossa missão aqui e, quando perguntei o que ele queria dizer com isso, ele respondeu que era algo além da diplomacia. Fingi não entender, mas aproveitei a ocasião para enfatizar a ele que, no que diz respeito ao México, nos limitamos exclusivamente à observação passiva dos acontecimentos e evitamos rigorosamente qualquer tipo de interferência nos assuntos internos. No entanto, como ele pôde perceber pelos artigos que já o havíamos inspirado a escrever, nosso objetivo é aproveitar as condições relativamente favoráveis da democracia no México para lutar ativamente contra os americanos e sua política imperialista. Ele afirmou estar totalmente disposto a ajudar nesse sentido. Da mesma forma, na desacreditação da política revanchista do governo da RFA. /Isso ele mesmo acrescentou/”.

Em 1964, quando foi recrutado em Praga como contato confidencial (categoria de agente), sua consciência e compreensão da situação em que se envolveu estavam em um nível mais elevado — o agente de inteligência que o recrutou registrou: “Também discuti com ele a questão das desinformações na imprensa ou de materiais que contivessem apenas uma verdade parcial”. Ele concordou veementemente com isso e citou, como exemplo, o provérbio dos jesuítas de que o importante não são os meios, mas sim se o objetivo é alcançado. No nosso caso, trata-se de uma causa justa e, por isso, ele não hesitaria em publicar algo semelhante, mesmo que se tratasse de desinformação.”
Naquela época, já se tratava de uma colaboração plenamente consciente que — no que diz respeito às medidas ativas realizadas por meio de Rosales na imprensa mexicana — não tinha nada a ver com jornalismo objetivo.
“Alonso” era extremamente importante para a StB, especialmente na época em que era sogro do agente “Vitor”, antes de este se divorciar. “Vitor” é Gustavo Eravisto Irtuegas, diplomata mexicano.
O sequestro de um agente pelos soviéticos
Por volta da virada do ano de 65 para 66, “Alonso” tornou-se alvo do interesse de Leonov, o “responsável pela imprensa soviética” (ou seja, o terceiro secretário da embaixada soviética para assuntos de imprensa). A StB registrou esse contato e não ficou nada satisfeita com isso. A inteligência tcheco-eslovaca solicitou à KGB que interrompesse esse contato, o que foi prometido. No entanto, a realidade era outra: o residente soviético teria até mesmo alegado que Leonov supostamente se reportava ao Ministério das Relações Exteriores e que a KGB teria supostamente relações ruins com esse órgão.
Não se tratava, porém, de um contato qualquer; aquele assessor de imprensa não era outro senão Nikolai Segeyevich Leonov, sobre quem se sabe hoje que era membro da inteligência da KGB desde 1958 e que já estava no México muito antes disso (na década de 1950, durante seus estudos, ele conheceu Fidel Castro e Che Guevara). Entre 1961 e 1968, porém, atuou lá como agente de inteligência, obviamente sob a cobertura de diplomata. Era, no que diz respeito à temática latino-americana, um agente de inteligência de ponta. Após seu retorno a Moscou, foi nomeado vice-chefe do departamento de inteligência americano. Assim, apesar do pedido da StB, Leonov continuou mantendo contato ativo com “Alonso”. Com o passar do tempo, ficou claro que Leonov trabalhava com “Alonso” de forma muito mais intensa do que os espiões tchecoslovacos. Quando Rosales voltava, em junho de 1967, de sua viagem de mais de um mês à União Soviética, em um encontro em Praga, “Alonso” admitiu que “elabora cerca de 50 artigos por ano para os amigos soviéticos, enquanto para nós, no máximo, de 3 a 5”. Vale acrescentar que um artigo era geralmente considerado como uma medida ativa concretizada.
A StB percebeu que, na prática, havia perdido esse agente e, por isso, ele acabou sendo incorporado aos contatos legais da rede de residentes, embora continuasse sendo utilizado. As informações dele sobre o genro — o agente “Vitor” (embora ele tenha acabado se divorciando da esposa e encontrado uma amante, uma bailarina, em Cuba) ou de outro mexicano que a StB estava investigando (tratava-se de “Cerese”, um colaborador muito importante da residentura; seu nome era Jonas Folores Carillo), informações políticas e ainda algumas medidas específicas que “Alonso” realizou. Até 1966, tratava-se das seguintes AO: Klacek, Agrese, Toro, Moskyt, Rachot, Ruce, Baze, Robo, Družba (II), Eda, Gama. De qualquer forma, no final de 1967, esse caso já não era mais conduzido como “contato confidencial”. Algumas delas eram mais do que um artigo de jornal; tratava-se de livretos.
Mais um sinal ruim
O ano de 1968, e sobretudo suas consequências, marcou uma virada decisiva. Entre elas estava a emigração, entre outros, do proeminente oficial operacional da inteligência Ladislav Bittman (codinome “Brychta”), sobre o qual havia uma suposição fundamentada de que ele poderia ter estabelecido contato com os inimigos e revelado a eles detalhes sobre o trabalho do serviço de inteligência tcheco-eslovaco. Essa suposição acabou se confirmando. De acordo com a análise da sede, Brychta era “com absoluta certeza capaz de estabelecer Alonso como nosso canal para a realização de AO” (medidas ativas). Daí decorreu a conclusão de que, a partir de então, esse contato só poderia ser utilizado legalmente. Embora fosse utilizável para medidas ativas, estas não podiam ser realizadas com o uso de falsificações e similares, ou seja, não podiam consistir em desinformação direcionada, mas, no máximo, em propaganda clássica. A inteligência soviética também deveria ser informada sobre esse fato. Vale explicar que Bittman (também conhecido como Brychta) trabalhou, em meados da década de 1960, no 8º Departamento; entre 1964 e 1966, foi vice-chefe do departamento, que era responsável por AO e desinformação, ou seja, ele tinha uma visão completa justamente do período em que “Alonso” foi utilizado de forma muito intensa nessa área.
Não é possível afirmar com certeza se essa informação foi repassada à KGB e, em caso afirmativo, como os soviéticos a avaliaram; o que é certo é que o sucessor de Leonov (correspondente da TASS no México; segundo registros da StB, um tal de Saratov, mas não consegui identificar nenhum jornalista com esse nome; pode tratar-se de um erro de registro) continuou mantendo contato com “Alonso”, que chegou a ser convidado novamente para a URSS; por outro lado, começou a evitar o contato com o agente de inteligência tchecoslovaco.

Basicamente, até o encerramento das atividades da residentura da 1ª Administração do FMV (Ministério Federal do Interior), em 1970, não foi possível manter contato com o ex-agente, já que ele próprio demonstrava um interesse mínimo nisso. Embora sempre estivesse interessado no fornecimento de bebidas alcoólicas e cigarros, aparentemente já era muito melhor abastecido pelos soviéticos.
Embora o impulso inicial para a colaboração de Rosalaes com a inteligência da Tchecoslováquia tenha sido, sem dúvida, motivado por questões ideológicas, durante a colaboração ele foi amplamente e frequentemente recompensado com bebidas alcoólicas, e suas despesas relacionadas à publicação de medidas de ação na imprensa foram custeadas — portanto, não se pode falar de uma abordagem puramente ideológica. A partir do exposto acima (cooperação com os soviéticos), pode-se deduzir (embora se trate de uma suposição que não pode ser confirmada de forma inequívoca) que Moscou recompensava a cooperação de forma muito mais generosa (incluindo duas viagens à URSS com duração de várias semanas, totalmente custeadas pela parte soviética) e que a oferta checoslovaca simplesmente deixou de ser interessante para “Alonso”.
Não sabemos exatamente se a residentura da KGB continuou ativa no México após 1971 (há registros de sua atividade em 1975), pois, nesse ano (em março), vários (cerca de cinco) agentes de inteligência soviéticos foram expulsos do México; pode-se supor que o trabalho da KGB tenha sido significativamente prejudicado, se não impossibilitado por algum tempo. Até que ponto o depoimento de Bittamno também teve influência nisso, só podemos especular. Mas não é difícil imaginar que, por exemplo, o contato contínuo de Paprika (Rosales, também conhecido como Alonso) com o jornalista soviético pudesse ter sido facilmente interceptado pela contrainteligência local, que pode ter sido discretamente alertada sobre esse jornalista específico pelos americanos com base em informações repassadas por um desertor tchecoslovaco.
A fraternidade na prática
Este caso ilustra bem as chamadas relações “fraternas” entre a StB e a KGB. O serviço de inteligência da Tchecoslováquia, fortemente sovietizado e subordinado a Moscou, começou a perceber dolorosamente, na segunda metade da década de 1960, que não se tratava de uma parceria, mas sim de uma relação vassala que se tornava um obstáculo. Tanto nisso quanto no trabalho operacional, em termos puramente técnicos. Isso levou a certos esforços de emancipação, que culminaram em uma tentativa (tímida e, no fim das contas, não concretizada) de reforma do serviço de inteligência. Em vez disso, veio a normalização…
Os consultores soviéticos que atuavam na sede da I. Administração, em Praga, tinham acesso aos arquivos ativos e podiam identificar facilmente os agentes adequados para eles. Da Brasil, conhece-se um caso em que a inteligência soviética, por volta de 1962, logo após o início de seu trabalho operacional no país, solicitou aos parceiros tchecoslovacos a transferência de parte da rede de agentes ativos que trabalhavam para a StB. Eles citaram nomes específicos das pessoas que desejavam e, em troca, ofereceram sua rede de agentes em outro país da América Latina. Essa troca (transferência) ocorreu de maneira cavalheiresca – pode-se dizer que de forma honesta. A StB prestou esse serviço sem reclamar, mas com o consentimento de seus agentes brasileiros.
Na segunda metade dos anos 60, os soviéticos já agiam de maneira diferente – simplesmente recebiam o agente em campo e ainda negavam o fato. Como a KGB conhecia perfeitamente a situação dentro da StB, Moscou suspeitava que a aprovação para a entrega do agente talvez já não fosse automática. Sabia que, nos serviços de inteligência de Praga, as atitudes patrióticas estavam se fortalecendo; que, na Tchecoslováquia como um todo (e, portanto, também nos serviços de inteligência), a liberalização e uma certa democratização estavam ganhando força, enquanto as atitudes internacionalistas eram, em grande parte, fingidas (certamente não em todos os casos).
Nesse contexto, vale a pena mencionar mais um detalhe do dossiê mantido sobre Rosales. O ano de 1968, a Primavera de Praga e sua repressão representaram, para muitos agentes estrangeiros, um divisor de águas bastante delicado, que muitas vezes abalou sua lealdade aos oficiais comandantes da Tchecoslováquia. Os espiões de Praga tiveram que recorrer a todo tipo de artimanhas intelectuais para manter um agente em dúvida. A maioria dos intelectuais de esquerda (e de entre eles foram recrutados muitos agentes da StB) não aceitou a intervenção das forças do Pacto de Varsóvia como uma “ajuda fraterna”, mas sim como uma manifestação do imperialismo comunista. José Natividad Rosales, ao que parece, inicialmente teve uma opinião semelhante sobre a invasão das tropas, que acabou por modificar. O resultado foi, conforme registrado pelo membro da inteligência Šimovič (cujo nome verdadeiro era Jiří Švestka), uma postura “totalmente razoável”. Natividad Rosales considerava a intervenção da URSS “inadequada”, mas acrescentava que “não é concebível que a República Socialista Checoslovaca se afaste da união dos Estados socialistas e que é necessário ajustar e consolidar tudo no que diz respeito às relações com os demais Estados socialistas”.
Nikolai Sergeyevich Leonov, em seu interessante livro *Licholjetě* (primeira edição de 1994), criticou o fato de que “os acontecimentos na Hungria em 1956 ou na Tchecoslováquia nos anos de 1968–1969 nunca foram submetidos a uma análise crítica séria nos círculos decisórios soviéticos. Limitaram-se a avaliações políticas que tinham como objetivo servir a um papel propagandístico, mas não exigiram de forma alguma que os líderes da época buscassem as causas da incompetência e escolhessem as soluções adequadas para combatê-la”. Embora não tenha se alongado mais sobre essa questão, parece que, como agente inteligente e experiente, ele compreendeu o erro fatídico da política soviética, que causou graves perdas ao movimento comunista internacional. Ele percebia o erro, mas, ao mesmo tempo — e isso fica claro ao ler o livro inteiro —, mantinha uma postura de resistentura apesar de tudo e de todos, ou seja, identificava-se com o império soviético, que simplesmente era sua única pátria. Ele enxergava com clareza todos os erros e equívocos, mas, no fim das contas, eram os erros e equívocos próprios, soviéticos e, portanto, os mais próximos de seu coração. Ele já poderia ter assumido essa postura em 1968 e poderia ter influenciado também o pensamento de Rosales. É, de fato, inimaginável que Leonov não tenha tentado influenciar o intelectual mexicano nessa questão. Conforme escreve em suas memórias, ele só deixou o México no final daquele ano. Portanto, seus contatos devem ter sido numerosos, e a formação ideológica fazia parte dessa relação entre um agente operacional e um agente.
A atuação do agente em campo era coordenada com a sede, que avaliava o andamento do trabalho e dava orientações sobre como prosseguir. Certamente foi assim também no caso do trabalho de Leonov com Natividad Rosales; o residente local, ou seja, o superior imediato de Leonov — o mesmo que se reunia regularmente com seu homólogo tchecoslovaco —, também foi informado de tudo. Vemos claramente que, ao afirmar que Leonov era um funcionário do Ministério das Relações Exteriores e não da inteligência, o residente soviético mentiu descaradamente para “nosso” residente. Não há como não concluir que Natividad Rosales era estrategicamente importante para a KGB. Sem dúvida, ele recebeu de Leonov a ordem de atenuar o relacionamento com os tchecoslovacos, pois os espiões tchecoslovacos agiam de maneira semelhante — aconselhavam (e com veemência) seus agentes, sobre os quais sabiam que mantinham contatos com representantes de outros países socialistas, a limitar esses contatos. Esses contatos eram, de fato, chamativos, aumentavam a vulnerabilidade e o risco de desmascaramento pela contrainteligência local. No comportamento de “Alonso”, especialmente após 1968, é visível a relutância em se relacionar com o espião tchecoslovaco. A explicação é dupla: ou isso se deveu ao ano de 1968 — o que sabemos que não é o caso —, ou foi uma intervenção de seu oficial de comando de outro serviço, ou seja, a KGB. Existe ainda uma terceira possibilidade, mas, neste caso, provavelmente mais hipotética: ele pode ter sido alertado pela polícia mexicana de que esta monitorava seus contatos com representantes de países socialistas e o aconselhava a reduzi-los.
É claro: conhecendo as qualidades morais da pessoa em questão, podemos, teoricamente, admitir que existia ainda uma quarta possibilidade – Rosales poderia ter sido abordado diretamente por algum serviço americano (talvez a CIA) e aconselhado a trabalhar para eles como agente duplo. No México, tal cenário não pode ser descartado.
A KGB exagerou
Vale a pena voltar a falar sobre aqueles cinco “diplomatas” soviéticos expulsos do México. Na época, foi um escândalo relativamente grande, que certamente afetou negativamente as relações entre a União Soviética e o México. À primeira vista, esse acontecimento não tem relação com Rosales, mas devemos ter em mente que, naquela época (a expulsão ocorreu em março de 1971), ele colaborava com a inteligência soviética; e uma medida tão radical sempre tem consequências de longo alcance para a inteligência em questão no território onde atua. Além disso, exerce um grande impacto psicológico sobre seus colaboradores secretos. Simplesmente causa medo. O caso ganhou destaque na mídia na época. Algo assim paralisou os colaboradores secretos.
Em primeiro lugar, após uma “fuga de informação” tão grave, ocorre uma redução das atividades ofensivas de espionagem. Em seguida, o serviço afetado analisa minuciosamente todos os seus casos, investiga onde pode ter ocorrido o erro, como aconteceu a “fuga de informação” (revelação), determina-se cautela especial e, se a ação do adversário for dolorosa (neste caso, houve a expulsão de cinco diplomatas de uma só vez, o que é realmente um golpe devastador), o trabalho de espionagem é simplesmente interrompido por completo. Parece que a residentura mexicana ficou paralisada apenas por um curto período, pois, segundo Mitrokhin, no início dos anos 70 ela estava relativamente ativa.
O que chama a atenção neste caso é o contexto desse escândalo. Ele, de fato, contradiz a convicção predominante nos círculos de historiadores de que a União Soviética, ao contrário de Cuba, não apoiava diretamente formas armadas de resistência na América Latina, optando, em vez disso, por uma atuação mais discreta. Neste caso, tratava-se de uma ligação comprovada entre esses espiões soviéticos e um grupo bandido (partisano). Os agentes foram vigiados durante um ano e, posteriormente, expulsos do país devido à sua ligação com o Movimento de Ação Revolucionária (MAR, Movimiento de la Acción Revolucionaria), cujos membros, após concluírem seus estudos em Moscou, passaram por treinamento guerrilheiro na Coreia do Norte, nas proximidades da capital, Pyongyang. No México, eles assaltavam bancos e se opunham ao governo. Tratava-se de uma guerrilha (predominantemente) urbana. Espiões soviéticos teriam comandado diretamente esse grupo. Os americanos afirmavam que essa rede de espionagem também teve participação nos distúrbios que eclodiram no México já em 1968.
A embaixada soviética contava, na época, com 25 diplomatas no México. Segundo estimativas, metade deles trabalhava diretamente para os serviços de inteligência. Se cinco deles estavam de alguma forma envolvidos na coordenação da resistência armada local (embora inspirada por Moscou), não se pode certamente falar de coincidência, nem de que a KGB não estivesse envolvida também nessas formas de subversão. O que chama a atenção, porém, é que o provável chefe da operação — Dimitrij Diakonov — era, na época, um experiente agente de inteligência de 53 anos, que atuava na América Latina desde 1947, MAS anteriormente — já em 1959 — havia sido expulso da Argentina por espionagem e, em 1963, a imprensa brasileira o associou à chamada “revolta dos sargentos”. Isso indicaria que a KGB passava por uma escassez de pessoal, o que explicaria a mobilização de um oficial “com histórico de espionagem” e também o papel da StB, como força de reserva, nessa guerra suja da Guerra Fria.
E mais uma curiosidade: a descoberta de cinco diplomatas soviéticos como espiões perigosos foi possível graças à emigração da secretária da embaixada soviética, Raisa Kiselnikova, em fevereiro de 1970. Foi ela quem, após sua fuga, repassou aos serviços de inteligência ocidentais (incluindo a CIA americana) informações valiosas sobre as operações secretas da KGB na América Central. É estranho que a KGB não tenha avaliado essa deserção como um risco potencial à segurança das ações em andamento e que não tenham sido tomadas medidas para impedir a revelação de seus agentes. É claro que não se tratava da fuga de um membro de carreira do serviço de espionagem, mas “apenas” de uma secretária; no entanto, um serviço de inteligência experiente certamente sabia que mesmo secretárias “comuns” costumam ser uma fonte de informações muito valiosa e confiável. Esse episódio interessante da Guerra Fria é descrito com bastante detalhes pelo autor americano John Barron em seu livro *KGB – The secret work of soviet secret agents* (Nova York, 1974), onde também encontramos fotografias de alguns dos protagonistas dessa história.
Como observação adicional, acrescentarei que as fontes russas (Wikipedia e peoples.ru) não associam Diakonov de forma alguma à KGB, nem sequer mencionam que ele foi expulso da Argentina e do México.
Fonte mexicana sobre a KGB no México https://www.eluniversal.com.mx/cultura/la-condesa-centro-de-operaciones-del-espionaje-ruso-en-mexico/?utm_source=chatgpt.com

Deixe um comentário