CAR: um quase agente

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Durante os anos 50 e 60 no Brasil, o serviço de inteligência da Tchecoslováquia (Diretório I da StB) usava codinomes para os seus agentes. Estes também eram dados àquelas pessoas que ainda não eram colaboradores secretos, mas os chamados contatos ou figurantes. Portanto, tratavam-se de pessoas com as quais os espiões se encontravam com relativa frequência, mesmo que não as conduzissem como agentes. Esses encontros geralmente não possuíam um status de conspiração, mas durante estes os oficiais da inteligência (na maioria das vezes sob cobertura diplomática) também usavam essas pessoas como fonte de informação, e acontecia inclusive de distribuírem tarefas a elas. A designação de tarefas era possível quando a relação mútua entre o oficial e o contato era boa o bastante para poder, sem problemas, aproveita-la em diferentes tipos de tarefas, cuja realização não levantasse suspeitas de que se tratava de trabalho de espionagem em favor de um país comunista. Normalmente, tal elo entre o espião e o figurante baseava-se em dois pilares, um era o relacionamento pessoal e o outro, a concordância ideológica. Durante os anos 50 e 60 do século XX, não faltavam no Brasil, pessoas ingênuas que admiravam os países do bloco socialista. Essas pessoas, embora não fossem comunistas, geralmente consideravam-se marxistas, apoiavam Cuba e eram de tendência progressista.

Na hierarquia do serviço de inteligência da StB, os contatos possuíam diferentes funções e importância – por exemplo, o chamado contato de cobertura, ou seja, uma pessoa que não estava nos planos de um aproveitamento mais profundo pelo serviço de inteligência; o contato com ela (público e aberto) servia para desviar a atenção das autoridades policiais brasileiras de outros contatos mais importantes. Também existiam, é claro, contatos com a perspectiva de que fossem “trabalhados” mais profundamente, com o objetivo de adquirir um colaborador consciente e secreto. Um contato como esse, transformava-se lentamente de um contato legal para um contato conspirado.

O estabelecimento de inúmeros contatos foi (e continua sendo) uma das ferramentas básicas do trabalho de oficiais de inteligência.

Os funcionários do serviço de inteligência enviavam a central da StB em Praga, relatórios sobre todos os novos contatos. A central analisava esses contatos e concluía se ele deveria continuar a ser cultivado ou abandonado. Os relatórios de funcionários da inteligência, geralmente são longas listas de diferentes nomes com breves características (quantos anos tem, onde trabalha, quais as suas convicções). Realmente muitos brasileiros passaram pelo filtro da inteligência tchecoslovaca, e não perceberam que estavam sendo examinados pelo serviço secreto de um país comunista.

Enquanto que um brasileiro inocente sem nenhuma culpa, pensava que havia conhecido um interessante e cativante diplomata de Praga, e que acabou conhecendo essa pessoa por acaso, na realidade toda uma equipe de pessoas estava trabalhando em cima dessa relação, observando-a e controlando-a de perto. O oficial da inteligência, ou seja, o tal encantador diplomata tchecoslovaco, agia de acordo com as instruções recebidas da central – é claro que neste trabalho havia espaço para a improvisação e adaptação a circunstâncias inesperadas, mas basicamente as ações eram planejadas e controladas.

O estabelecimento de contatos por oficiais da StB pode ser comparado ao lançamento de uma rede de pescador, onde a pesca era depois analisada, os exemplares inúteis eram jogados de volta ao mar e aqueles mais interessantes, continuavam a ser investigados. Muitas vezes, tal exemplar, ainda em processo de “trabalho” preliminar, isto é, antes que fosse adquirido para uma colaboração secreta, já realizava em prol de seu conhecido da Tchecoslováquia, as chamadas operações ativas, por meio das quais a inteligência da StB influenciava, por exemplo, a opinião pública no Brasil. Aqui já podemos falar sobre uma cooperação consciente, mas geralmente esse contato não estava ciente de que está fazendo isso para um serviço de inteligência de um país estrangeiro. Tal trabalho era possível quando existia uma concordância ideológica entre o oficial condutor e seu contato, ou seja, possuíam convicções políticas mais ou menos convergentes.   

Quando em setembro de 1960, o oficial da inteligência camarada “Bakalář”, que trabalhava na embaixada da Tchecoslováquia no Rio de Janeiro como terceiro secretário para as questões culturais, relatou à central da StB em Praga sobre seus contatos. Dedicou mais atenção neste relatório à pessoa com o pseudônimo de “CAR” (Czar em tcheco). O documento encontra-se na pasta de correspondência operacional com nr. de registro 80543. E aqui um pequeno esclarecimento: caso o leitor tente agora procurar sozinho pelo pseudônimo “CAR” na ferramenta de busca do ABS (https://www.abscr.cz/jmenne-evidence/), ele obterá o resultado de 697 registros, onde aparecerão várias formas deste pseudônimo nos registros da StB. Nenhum deles, no entanto, é o “CAR” em questão, quer dizer, aquele sobre o qual escreve “Bakalář”. Ele não está lá.

Ao mesmo tempo, o tal “CAR”, segundo a leitura do relatório, era um contato brasileiro muito importante, que realizou operações ativas e inclusive existia uma perspectiva bastante real de que fosse recrutado como um colaborador secreto consciente da inteligência tchecoslovaca. Bem, estamos falando de alguém que era deputado federal.

Nosso personagem é uma figura respeitada na história do Brasil, especialmente na cidade paulista de São José do Rio Preto. Ele é o autor do projeto da lendária reforma agrária apresentado na Câmara dos Deputados em 1954 (este projeto teria sido posteriormente aproveitado em Cuba, graças a Che Guevara).

Todas as biografias oficiais desse médico e político, como geralmente acontece em nossas pesquisas, omitem aquilo que até agora estava oculto – ou seja, o fato de termos encontrado informações sobre esta pessoa nos materiais produzidos pelo serviço de inteligência da Tchecoslováquia comunista.

https://www.camara.leg.br/deputados/130457/biografia

http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/joaquim-nunes-coutinho-cavalcanti

http://apaginadavida.blogspot.com/2008/11/ana-maria-garcia-cardoso-antnio.html

http://www.diariodaregiao.com.br/index.php?id=/secoes/opiniao/artigos/materia.php&cd_matia=887250

Joaquim Nunes Coutinho Cavalcanti (1906-1960) foi duas vezes deputado federal, membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas como este partido foi proibido a partir de 1948, ele a cada eleição se filiava a outro partido de esquerda. Em seu último mandato, desde 1959, foi o PTB. Um exemplo clássico de balaio de gatos.

Mas o que encontramos no relatório do camarada “Bakalář” sobre o deputado de nosso interesse? O espião tchecoslovaco escreve que o conheceu no início de 1960, como um político fortemente antiamericano. Após um breve conhecimento, ele lhe fez um pedido de ajuda na realização da operação ativa ÚDER (Impacto). Segundo escreve o oficial da StB, o figurante fez tudo o que ele pediu. Não há uma documentação específica sobre esta operação, conseguimos encontrar somente uma certa menção a respeito, da qual resulta que esta ação teve algo a ver com uma reunião das forças nacionalistas e uma interpelação parlamentar feita pelo figurante ao qual foi dado o pseudônimo de “CAR”. “Bakalář” também usou “CAR” para uma operação chamada ARCHIV (Arquivo).

O interessante é que o oficial condutor não viu sentido no recrutamento deste figurante, chamou a atenção à falta de propósito do recrutamento, pois sem isso o figurante já faz o que queremos, mas a Central foi de uma opinião diferente e ordenou para que fossem coletadas todas as informações sobre “CAR” e que a sua aquisição fosse realizada. Quanto à questão de recompensa, sabia-se que “CAR” não colaborava por dinheiro, mas sim por motivações ideológicas. No entanto, ele expressou desejo de visitar a Tchecoslováquia junto com sua esposa. Isso foi decididamente rejeitado pela Central que ordenou a “Bakalář” para que o direcionasse a Cuba, onde ele poderia estudar questões relacionadas com a reforma agrária. Também foi considerado que o oficial lhe presenteasse com uma pistola de calibre 6,35 mm, pois apesar de o deputado já possuir uma pistola como essa, teve que dá-la de presente. Essas recomendações são de outubro de 1960. É fácil imaginar que realmente o serviço de inteligência da StB pretendia, no futuro, aproveitar mais os serviços desse criptocomunista, portanto não era desejável que ele fosse associado à Tchecoslováquia e, por isso, a decidida recusa em ajudar a organizar uma viagem a Praga.

De acordo com os outros documentos da dita pasta, sabe-se que o “CAR” também executou no parlamento a operação ativa “RAMPA” de maneira que, de acordo com as nossas recomendações, realizou no parlamento a avaliação da viagem de Eisenhower aos países da América Latina.

Visita de Eisenhower ao Brasil em 1960.

Esta operação, assim como as outras, foi posteriormente mencionada na avaliação geral da realização do plano de trabalho da rezidentura do ano de 1960, como prova da melhoria neste segmento de trabalho e de que obteve bons resultados.

O figurante “CAR” aparece então nas breves avaliações da AO LOKAJ, AO MASA e AO RAMPA. Sobre a AO LOKAJ, foi escrito que por intermédio do figurante CAR realizamos uma interpelação no Parlamento brasileiro, no âmbito da qual ele protestou fortemente contra a intromissão dos EUA nos assuntos brasileiros. Ela baseou-se, entre outras, nas notícias de imprensa, segundo as quais, a embaixada dos EUA no Brasil havia oferecido suborno a alguns governadores para que permitissem que os arquivos da polícia brasileira, que são de interesse dos EUA, fossem fotografados. 

A AO MASA, por sua vez, na qual, além de CAR, também participou o agente “PAULO” (Robert Plassing, nr. de registro 42989) tratava de promover o sucesso de países socialistas, especialmente da União Soviética, na ajuda de países subdesenvolvidos. Essa operação, simultaneamente, teria como objetivo desacreditar os Estados Unidos. “CAR”, no âmbito dessa ação, fez um discurso no parlamento no qual mostrou de uma perspectiva realista como é a “ajuda” dos EUA. Neste discurso, de acordo com o documento da StB, ele usou materiais que lhe foram fornecidos pelo camarada “Bakalář”.  

Como podemos ver, embora o “trabalho” operacional feito sobre o figurante estivesse apenas no seu estágio inicial, ele já era um colaborador bastante útil do serviço de inteligência da Tchecoslováquia. Sendo assim, não é de surpreender, que em 25.10.1960 a central em Praga tenha ordenado ao seu espião no Brasil que elaborasse uma proposta de recrutamento desse deputado. Esperava-se que esta proposta, ainda em 1960, fosse submetida para aprovação ao Ministro do Interior, ou seja, ao chefe do serviço de inteligência.

Esta proposta não se encontra na pasta, pois “CAR”, em novembro de 1960, em um curto espaço de tempo, sofreu dois ataques cardíacos, onde, por consequência do segundo, faleceu em 27.11.1960. Segundo o residente “Jezerský” registrou na nota de 11.12.1960 – o figurante foi retirado do plano de “trabalho”, pois faleceu e isso é uma grande pena, pois na opinião do camarada Bakalář o seu recrutamento poderia ser realizado no primeiro semestre do ano de 1961.  

Apesar de este figurante não ter se tornado um agente da StB de forma oficial, houve tempo para que ele servisse como se fosse um agente de influência eficaz. Ele não forneceu informações secretas, mas participou ativamente nas chamadas operações ativas, isto é, na influência sobre a opinião pública de acordo com as instruções recebidas do serviço de inteligência de um país comunista. Ele não recebeu dinheiro por isso, mas, como um criptocomunista sabia perfeitamente que era um soldado no fronte secreto da Guerra Fria e que os seus contatos com o diplomata tchecoslovaco serviam para realizar objetivos do Bloco Oriental. Lembremos que isso aconteceu em 1960, ou seja, bem antes dos governos militares, em condições democráticas, quando o Brasil, ao contrário da Tchecoslováquia, sem dúvida, fazia parte do mundo livre.

Nas notas elaboradas pela StB relacionadas com este deputado não há informações sobre ele ser membro do PCB. Parece que a falta desta informação resulta do fato de “Bakalář” simplesmente não ter conseguido reunir todas os dados sobre sua pessoa, o que provavelmente estaria ligada com a intenção de realizar o recrutamento desse figurante. Pois antes de um recrutamento, era sempre necessário que fosse elaborado o chamado memorando, no qual tentava-se reunir o máximo possível de informações detalhadas sobre o futuro agente. Se isso acontecesse (ou seja, se um memorando tivesse sido escrito), talvez a questão de recrutar um comunista fosse considerada. Como se sabe, em 1961 já estava em vigor a proibição de adquirir membros de partidos comunistas. Sabemos sobre casos onde foi desistido de realizar a aquisição, quando veio à luz que o figurante era um comunista. O serviço de inteligência da StB poderia, em uma situação muito vantajosa, obter permissão para aplicar uma exceção. Quer dizer, caso se chegasse a conclusão de que as vantagens eram superiores aos riscos, uma exceção poderia ser autorizada. É difícil especular sobre este assunto.

Seja como for, Joaquim Nunes Coutinho Cavalcanti, considerado por muitos como um político admirável que muito fez pelo país, foi sem dúvida, em 1960, com o seu consentimento, utilizado pelo serviço de inteligência da Tchecoslováquia comunista. Esta colaboração durou pouco tempo, podemos falar em apenas alguns meses de trabalho em prol do serviço de inteligência da StB. Não foi dedicada a esta pessoa uma pasta especial nos arquivos do STB, ela nem mesmo se encontra nos registros. Os documentos que descrevem a história aqui apresentada estão dispersos na pasta de correspondência operacional, onde o seu caso foi registrado.

Existem muitos personagens como esse, que aparecem nos materiais do serviço de inteligência por terem sido “trabalhados”. Geralmente, por algum motivo, o “trabalho” não era levado a um final bem-sucedido do ponto de vista da StB, ou seja, a um recrutamento. Eis algumas dessas situações: a pessoa pela qual a StB estava interessada perdeu a sua função e, portanto, as suas possibilidades operacionais; tal pessoa deixou claro que não deseja continuar a encontrar-se com o diplomata (isto é, com o oficial do STB); a central conclui que não vale mais a pena investir tempo e atenção a uma determinada pessoa; ou, os amigos (KGB) se interessaram pelo figurante; etc. Havia muitas razões para isso. Na história descrita por nós, trata-se de outro caso – a interferência da morte. Neste caso, a morte súbita entristeceu não somente aos familiares do falecido, mas também aos espiões comunistas…

Vladimír Petrilák

Um dos discursos de CAR com o tema antiamericano registrado nos Anais da Câmara dos Deputados:

Anais da Câmara dos Deputados de 18/07/1960_p._82_a_87

 

Uma das poucas fotografias de CAR encontrada ao lado de um artigo de sua autoria publicado na imprensa da época.
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