Vladimír Petrilák
Anatoli Chadrin – um oficial de inteligência soviético desconhecido – e Mosca
Vou começar por um desvio… Se quiser escrever qualquer coisa sobre Šadrin, preciso voltar à figura do advogado e sociólogo brasileiro Clodomiro Morais (1928-2016), sobre quem escrevi no livro *Samba Vermelho*. Volto a falar dele depois de tantos anos, mais por acaso. Pois agora estou tentando reunir materiais sobre a residência da inteligência tchecoslovaca (1ª Direção do Ministério do Interior, ou seja, a StB) no Equador — o que, por si só, é extremamente interessante, pois até então prevalecia a convicção (tente perguntar isso, por exemplo, à AI) de que não havia uma representação da StB nesse país —, me deparei também com um indício que confirma a presença da KGB em Quito. No entanto, essa presença só está documentada a partir de 1971, quando, segundo o melhor site dedicado à KGB (veja: https://shieldandsword.mozohin.ru/kgb5491/resident/quito.htm), Anatoli Mikhailovich Chadrin teria sido o residente naquele ano (ШАДРИН Анатолий Михайлович).
Chadrin – uma figura absolutamente misteriosa, sobre a qual não se consegue encontrar praticamente nada na internet. Nem mesmo o fato de que ele poderia ter atuado no corpo diplomático do Ministério das Relações Exteriores da União Soviética. E esses registros geralmente são relativamente fáceis de localizar, pois existem documentos diplomáticos acessíveis ao público (nem sempre) nos quais são listados os representantes de cada país. No caso de Chadrin, porém, não há praticamente nada. Tentei até mesmo um mecanismo de busca russo e várias outras formas – o resultado é praticamente nulo. Existem muitos Chadrins, mas parece que esse diplomata nunca existiu. Esse diplomata soviético (e outros dois) apareceu apenas no site de documentos desclassificados da CIA em relação ao Equador, de onde foi expulso em 1971. O que certamente é confirmado também por fontes equatorianas de acesso público.
Mas algo me passou pela cabeça: que eu já devia ter me deparado com um nome que soasse como Šadrin em algum lugar. Não se trata do famoso jogador de hóquei que vestia a camisa com a inscrição CCCP. É claro que me lembrei dele também.
Sim, lembrei-me de ter lido sobre alguém com um nome semelhante em relação ao Brasil, por volta do início dos anos 60, e que deveria constar nos registros da inteligência da I. Administração do Ministério do Interior. E isso, como percebi, estava relacionado a um brasileiro que se casou com uma tcheca…
Então, tive que mergulhar novamente nos arquivos relacionados às atividades da inteligência tchecoslovaca na Brasil na década de 60 do século passado, para finalmente encontrar esse Chadrin.
Nos documentos americanos, ele é mencionado como Chadrin, enquanto no português do Brasil é Chadrin, Anatole Chadrin. Consegui até encontrar uma foto dele na imprensa da época, que vai reproduzida acima.
Então, o que Chadrin tem a ver com o Brasil e com “A Mosca”?
Em 13 de dezembro de 1962, o advogado e deputado Clodomir de Morais, advogado das Ligas Camponesas — organizações semiparamilitares de camponeses e sindicais lideradas pelo carismático político Francisco Julião (1915-1999) —, foi detido pela polícia no Rio de Janeiro. Morais era uma figura bem conhecida pela StB, que lhe atribuiu o codinome MOSCA, que significa mosca mesmo. Morais (às vezes grafado Moraes) casou-se em 1958 com a tcheca Maria Březinová (nascida em 1940), com quem teve dois filhos no Brasil. Ele a conheceu como intérprete durante uma visita à Tchecoslováquia em 1957. Na época, ele era o chefe da delegação brasileira no Festival Mundial da Juventude, em Viena, e aproveitou para fazer uma viagem à Tchecoslováquia. Em 1958, Marie Březinová mudou-se (legalmente) para a Brasil para ficar com ele.
A inteligência da Tchecoslováquia só começou a se interessar mais de perto por Morais em 1961, justamente por causa de sua ligação com as Ligas dos Agricultores. A KGB pretendia estabelecer contato com essa organização, que reunia a classe agrícola pobre, mas foram os agentes da StB que deram os primeiros passos para sondar a situação. No entanto, a representação no Rio soube, por meio de “amigos” cubanos (ou seja, do serviço secreto DGI), que Morais, juntamente com outros dirigentes das Ligas, havia concluído, em 1961, em Cuba, um curso de combate guerrilheiro e que era membro secreto do Partido Comunista do Brasil (PCB). Essas circunstâncias levaram à máxima cautela no contato com ele — na verdade, a inteligência não queria mais manter esse contato, devido ao alto risco de desmascaramento (também porque era proibido à inteligência manter contato com membros de partidos comunistas), mas Julião, chefe dessa organização, desejava que Clodomir Morais fosse o elo de ligação entre ele e os tchecoslovacos. Ele considerava que, por ter uma esposa tcheca, sabia como se comunicar com os tchecos. Vale ressaltar que a posição de Morais nas Ligas não era qualquer uma, pois ele era o braço direito do líder desse movimento.
Aqui vale a pena mencionar mais um detalhe: na embaixada da Tchecoslováquia em Havana, segundo registros da StB, o próprio Fidel Castro interveio pessoalmente em favor da causa de Morais; o objetivo era que a mãe de Březinová, que havia ficado na pátria praticamente sozinha como viúva, pudesse se mudar da Tchecoslováquia para se juntar à filha e ao genro. Isso confirmaria a informação que a StB também recebeu de Cuba, a saber, que Morais conhecia Fidel Castro pessoalmente. O governo autorizou essa emigração.
As Ligas Camponesas queriam, acima de tudo, obter armas da Tchecoslováquia. MOSCA (esse era o codinome dado a Clodomir de Morais) chegou a especificar com precisão, durante uma reunião em maio de 1962, de que tipo de armas se tratava. Elas buscavam armas de origem americana (devido à maior facilidade de obtenção de munição), armas curtas, antitanques, granadas, bazucas etc. As Ligas também queriam um projetor de filmes, filmes de instrução e livros sobre a condução da luta armada. MOSCA se interessou especificamente em saber se existia algum filme sobre como ocorreu o golpe de Estado na Tchecoslováquia em 1948.
As preocupações da StB com relação ao contato com Morais encontraram fundamento em um comunicado publicado na revista Novos Rumos (imprensa comunista) sobre a expulsão de Morais do Partido Comunista por postura aventureira e ação subversiva. Tratava-se, sem dúvida, de uma inclinação decisiva da Liga para o caminho cubano — ou seja, para uma solução armada, o que os comunistas, na época, rejeitavam por questões estratégicas. No início de 1962, devido a essas divergências, chegou-se até mesmo à divisão do partido em dois: o mais antigo era pró-Moscou, enquanto os dissidentes — que eram pró-China e pró-Cuba — defendiam um golpe violento a ser realizado o mais rápido possível.
Enquanto isso, Julião, a pedido da StB, designou outras pessoas como contatos com a residência da inteligência no Rio, mas, mesmo assim, os encontros com “Moscou” continuavam ocorrendo.
Em abril de 1962, a representação elaborou, para o Comitê Central do Partido Comunista Tcheco (KSČ) e seus aliados (KGB), com base em conversas com Julião e Morais, um relatório abrangente sobre as Ligas. Vale acrescentar que a tarefa de identificar essa organização fazia parte da ação ativa LUTA, que era uma operação de inteligência cujo objetivo era orientar na direção desejada uma eventual guerra civil, caso ela eclodisse no Brasil — o que, na época, era considerado uma possibilidade bastante real.
Enquanto isso, Julião, a pedido da StB, designou outras pessoas como contatos com a residência da inteligência no Rio, mas, mesmo assim, os encontros com “Moscou” continuavam ocorrendo.
Em abril de 1962, a representação elaborou, para o Comitê Central do Partido Comunista Tcheco (KSČ) e seus aliados (KGB), com base em conversas com Julião e Morais, um relatório abrangente sobre as Ligas. Vale acrescentar que a tarefa de identificar essa organização fazia parte da ação ativa LUTA, que era uma operação de inteligência cujo objetivo era orientar na direção desejada uma eventual guerra civil, caso ela eclodisse no Brasil — o que, na época, era considerado uma possibilidade bastante real.
O relatório sobre as Ligas indicava que elas contavam com mais de 250 mil membros, que já haviam formado unidades militares e que também buscavam construir estruturas de guerrilha urbana. Um detalhe muito interessante e notável de suas táticas planejadas (em uma situação de luta revolucionária) foi revelado por “Mosca”. Aqui, cito textualmente: “Ele (a fonte, ou seja, MOSCA) acrescentou que, em conversa com Fidel Castro, este se queixou de ter cometido um erro ao ocupar Havana diretamente, sem deixá-la sofrer um pouco, e que, por isso, Havana é agora o maior foco da reação. Ele reclamou de Guevara, por cuja iniciativa Havana foi rapidamente ocupada. Com base nesse argumento, parece que a liderança das Ligas (ou, pelo menos, a fonte) acredita que deixar as cidades passar fome lhes renderá a simpatia da população urbana.”
O relatório constata ainda que a liderança das Ligas, em essência, aguarda um estímulo que lhes permita desencadear uma guerra de guerrilha no interior da Brasil. O sinal pode ser um golpe de direita, mas também pode ser um evento de importância muito menor, que, no entanto, afete o campesinato.
As Ligas estavam convencidas de que tinham potencial para desencadear uma luta armada e, por meio da guerra de guerrilha, impulsionar uma mudança no regime político do Brasil.
Para as lideranças tchecoslovaca e soviética, porém, também era fundamental o fato de que Julião havia se afastado do Partido Comunista do Brasil e se orientado inequivocamente para Cuba.
Em dezembro de 62, Morais foi detido, juntamente com uma suposta companheira (Celia Lima, e não sua esposa), enquanto transportava armas em um carro. Morais afirmou posteriormente que as armas lhe foram colocadas secretamente e que foi torturado pela polícia durante o interrogatório com choques elétricos nos testículos.
Vale lembrar que tudo isso aconteceu ANTES do golpe militar (1964), ou seja, em condições democráticas, quando o governo de Goulart promovia uma política de esquerda e orientava o país para relações com o bloco comunista. Durante o governo de Goulart, o Partido Comunista saiu da ilegalidade. Muitas outras iniciativas de esquerda se desenvolveram; em suma, embora ainda fosse um sistema democrático, apresentava muitas tendências de esquerda.
A título de curiosidade, mais uma crítica feita pelos principais representantes da Liga durante as negociações com a representação da inteligência – eles se surpreenderam com o fato de a Tchecoslováquia estar armando clandestinamente (secretamente) Brizola e Goulart, e não a própria Liga. Trata-se de remessas secretas e ilegais de armas de fabricação tchecoslovaca (em grande quantidade), das quais, no entanto, a StB não tinha o menor conhecimento. Vale explicar aqui que o populista de esquerda Leonel Brizola era governador do estado do Rio Grande do Sul e cunhado de Goulart. João Goulart era presidente de todo o Brasil. Supostamente, tratava-se de um armamento secreto para o caso de — seja para repelir uma tentativa de golpe de direita, seja para se preparar para um golpe preventivo de esquerda. A questão da importação ilegal de uma grande quantidade de armas tchecoslovacas chegou a ser, na época, objeto de uma interpelacão por parte de um dos deputados de direita. No entanto, a inteligência civil StB realmente não teve nada a ver com isso… Pode ter sido uma ação arbitrária de Cuba, mas isso é apenas uma hipótese.
Mas voltemos à prisão de Morais. Recordo todo esse caso principalmente porque, tanto na imprensa brasileira quanto nos registros da StB, surgiu, nesse contexto, o nome de um diplomata soviético. Com Clodomiro Morais foi encontrado, de fato, um cartão de visita desse diplomata com uma breve mensagem – um pedido de desculpas por não poder comparecer ao encontro marcado com Francisco Julião. No cartão de visita constava o nome do cônsul soviético CHARDIN. Posteriormente, surgiu a versão “CHADRIN”. E o camarada Bakalář (da residência da StB), em uma nota esclarecedora que fez constar em relatório, explicou: Anatolio M. Chadrin – segundo secretário (assuntos consulares).
Alguns dias depois, porém, a residência informou que, na verdade, nada havia acontecido. Segundo o relato do agente LOBO, o Conselho de Segurança Nacional, vinculado à Presidência da República, classificou a gravidade do caso como praticamente nula e considerou a menção ao diplomata soviético como algo fortuito.
Resta saber até que ponto o agente LOBO era um colaborador confiável e também até que ponto a postura do Conselho de Segurança Nacional era realmente objetiva, já que os acontecimentos subsequentes — mesmo antes do golpe militar — indicaram uma total indulgência (intencional ou ingênua?) por parte do governo e do Conselho em relação às questões relacionadas à infiltração comunista no Brasil.
O StB chegou a investigar o chefe
Ligas Francisco Julião;
No entanto, após discussões com “amigos” (a KGB), foi estabelecida uma “nova linha de trabalho no Brasil”, o que significou que a KGB assumiu a responsabilidade tanto pelas Ligas quanto por Julião. Provavelmente, o mesmo destino se abateu também sobre as medidas ativas da Luta.
Mas não estou abordando essas questões aqui; o essencial é o envolvimento de Chadrin — por mais indireto que seja —, pois isso confirma que a União Soviética se interessou pela Liga e, indiretamente, que o segundo secretário da Embaixada Soviética deve ter sido um oficial da KGB. Sua expulsão do Equador em 1971, portanto, não pode mais ser vista como uma questão puramente política (as acusações eram, afinal, bastante rebuscadas – ele estaria supostamente incitando os sindicatos a entrar em greve e derrubar o regime). Ele era, sem dúvida, um agente de inteligência – e um agente experiente –, que, enquanto trabalhava como oficial de inteligência no Brasil, já havia estabelecido contato com uma organização guerrilheira na qual se esperava que desempenhasse um papel nada desprezível como parte de uma operação secreta dos serviços secretos comunistas (AO LUTA).
Apenas algumas poucas menções na imprensa da época e na documentação do StB, aliadas à compreensão do que os serviços de inteligência da URSS e da República Socialista da Tchecoslováquia buscavam alcançar na década de 1960, fornecem uma base sólida para a suposição de que Anatoly M. Chadrin era, de fato, um espião profissional.
Por enquanto, não é possível encontrar mais informações sobre Chadrin. Os arquivos da KGB em Moscou estão inacessíveis, e outras fontes se mostraram infrutíferas. No entanto, isso pode mudar. Esperemos que seja em breve…
NB
Consultei o site brasileiro “Brasil nunca mais”, onde está reunida a documentação das autoridades repressivas do Brasil contra diversos comunistas e esquerdistas. Lá também é possível encontrar registros relacionados a Clodomiro Morais. Não encontrei nada de extraordinário lá, mas um pequeno detalhe me chamou a atenção: as autoridades policiais do estado de Pernambuco registraram o contato de Morais com um cidadão tchecoslovaco — e aqui está o nome distorcido — Ludomir Blasik. Essa informação foi enviada de Pernambuco às autoridades policiais de Minas Gerais em março de 1962. No relatório, constatava-se que Morais era o elo de ligação entre aquele cidadão tchecoslovaco e Francisco Julião. Bem, há ainda algo lá sobre bandos comunistas, guerrilha etc. Isso faria sentido, mas, quanto ao tchecoslovaco, provavelmente foi um pouco diferente. Sem dúvida, deve tratar-se de Lubomír Blažík. Ele esteve no Brasil como correspondente da ČTK (mais uma vez — a inteligência artificial não sabe nada sobre isso) de fevereiro de 1960 a julho de 1960. As autoridades brasileiras não renovaram seu visto, e ele teve que partir. Como jornalista, ele participou, entre outras coisas, da cerimônia de inauguração da nova capital, Brasília. E agora, atenção: ele não estava lá como membro do quadro da inteligência; só se tornou isso após seu retorno do Brasil, em 15 de novembro de 1960. Vale acrescentar que, em 1968, L. Blažík era partidário do movimento reformista e, após as purgas, foi demitido do Ministério do Interior, voltando à profissão de operário. Antes disso, porém, desde a década de 1950 e por muitos anos, ele foi agente, o chamado “colaborador ideológico”. No entanto, nem no dossiê mantido sobre Morais nem no outro dedicado a Julião há qualquer menção a esse contato com Blažík. É verdade que não se pode descartar que tal contato pudesse ter sido solicitado, por exemplo, pela KGB em relação a “Radek” (que era o codinome de Blažík), mas naquela época eu não consideraria isso provável. Nem mesmo a StB queria isso dele, e a KGB ainda não possuía sua representação legal no Brasil. Tratava-se, antes, de um interesse puramente jornalístico por um líder interessante do movimento camponês. Portanto, nem tudo que é secreto é realmente valioso… Mas isso é apenas uma observação à margem e para o caso de alguém querer envolver Lubomír Blažík nessa história. Ele faz parte dela, é verdade, mas de forma totalmente secundária e não em conexão com espionagem e atividades subversivas, por mais que, à primeira vista, possa parecer assim.
E mais uma observação:
Morais foi preso novamente após o golpe de 1964, passou cerca de um ano na prisão e, depois, foi forçado a emigrar — tornou-se sociólogo e divulgador do movimento cooperativista, atuando, entre outros lugares, no Chile, no México e também na RDA. No exílio, ele se casou duas vezes, o que leva à conclusão de que se divorciou de Maria Březinová. Ela e suas duas filhas permaneceram no Brasil mesmo após o golpe — foi tudo o que consegui descobrir.
Vladimír Petrilák
NB
Consultei o site brasileiro “Brasil nunca mais”, onde está reunida a documentação das autoridades repressivas do Brasil relativa a diversos comunistas e esquerdistas. Lá também é possível encontrar registros relacionados a Clodomiro Morais. Não encontrei nada de extraordinário lá, mas um pequeno detalhe me chamou a atenção: as autoridades policiais do estado de Pernambuco registraram o contato de Morais com um cidadão tchecoslovaco — e aqui está o nome distorcido — Ludomir Blasik. Essa informação foi enviada de Pernambuco às autoridades policiais de Minas Gerais em março de 1962. No relatório, constatava-se que Morais era o elo de ligação entre aquele cidadão tchecoslovaco e Francisco Júliao. Bem, há ainda algo lá sobre bandos comunistas, guerrilha etc. Isso faria sentido, mas, quanto ao tchecoslovaco, provavelmente a história era um pouco diferente. Sem dúvida, deve tratar-se de Lubomír Blažík. Ele esteve no Brasil como correspondente da ČTK (mais uma vez — a inteligência artificial não sabe nada sobre isso) de fevereiro de 1960 a julho de 1960. As autoridades brasileiras não renovaram seu visto, e ele teve que partir. Como jornalista, ele participou, entre outras coisas, da cerimônia de inauguração da nova capital, Brasília. E agora, atenção: ele não estava lá como membro do corpo de inteligência; só se tornou isso após seu retorno do Brasil, em 15 de novembro de 1960. Vale acrescentar que, em 1968, L. Blažík era partidário do movimento reformista e, após as purgas, foi demitido do Ministério do Interior, voltando à profissão de operário. Antes disso, porém, desde a década de 50 e por muitos anos, ele foi agente, o chamado “colaborador ideológico”. No entanto, nem no dossiê mantido sobre Morais nem no outro dedicado a Julião há qualquer menção a esse contato com Blažík. É verdade que não se pode descartar que tal contato pudesse ter sido solicitado, por exemplo, pela KGB em relação a “Radek” (que era o codinome de Blažík), mas naquela época eu não consideraria isso provável. Nem mesmo a StB queria isso dele, e a KGB ainda não possuía sua representação legal no Brasil. Tratava-se, antes, de um interesse puramente jornalístico por um líder interessante do movimento camponês. Portanto, nem tudo que é secreto é realmente valioso… Mas isso é apenas uma observação à margem e para o caso de alguém querer envolver Lubomír Blažík nessa história. Ele faz parte dela, é verdade, mas de forma totalmente marginal e não em conexão com espionagem e atividades subversivas, por mais que isso possa parecer — à primeira vista —.
E mais uma observação:
Morais foi preso novamente após o golpe de 1964, passou cerca de um ano na prisão e, depois, foi forçado a emigrar — tornou-se sociólogo e divulgador do movimento cooperativista, atuando, entre outros lugares, no Chile, no México e também na RDA. No exílio, ele se casou duas vezes, o que leva à conclusão de que se divorciou de Maria Březinová. Ela e suas duas filhas permaneceram no Brasil mesmo após o golpe — foi tudo o que consegui descobrir.
E mais uma coisa:
Dois diplomatas soviéticos — Chadrin e Jackov (conforme escreve Tobies Rupprecht no artigo “Socialist high modernity and global stagnation: a shared history of Brazil and the Soviet Union during the Cold War”, Journal of Global History, 3/2011) —
“Anatolij Šadrin e Nikolaj Jackov” (cito a transcrição do texto em inglês!) receberam, em novembro de 1964 (ou seja, alguns meses após o golpe de direita), a Medalha de Louvor do governo de Castelo Branco. Segundo a imprensa, eles teriam agido em desacordo com a ordem de não se intrometer nos assuntos internos do Brasil. O então ministro das Relações Exteriores do Brasil teria comentado esse assunto, em uma conversa privada com o embaixador soviético, como uma invenção total. Ou então, ou os golpistas brasileiros tinham um senso de humor refinado, ou, nesse caso, tratava-se de uma tentativa de comprometer esses diplomatas soviéticos perante suas próprias autoridades soviéticas; poderia ter sido uma espécie de jogo psicológico — uma medida ativa —, para usar a linguagem dos agentes de inteligência comunistas.
Sobre as Ligas Camponesas e Clodomir Morais, há mais informações no livro: 1964 – O Elo Perdido – O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista


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