Carlos Fuentes – (um tipo) totalmente inadequado

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Carlos Fuentes (1928–2012), famoso escritor mexicano e uma das figuras mais notáveis da literatura hispano-americana, tornou-se, no início da década de 1960, alvo do interesse da residência da inteligência tchecoslovaca (1ª Direção do Ministério do Interior, parte da StB). Ele apareceu nos registros da delegação em Cidade do México pela primeira vez em junho de 1961 como fonte de uma informação enviada nos dias anteriores por telegrama à sede do serviço de inteligência da Tchecoslováquia comunista, em Praga. Na época, o jornalista — ainda relativamente desconhecido — estava prestes a viajar para Praga.

A inteligência imediatamente se interessou por ele e decidiu aproveitar a oportunidade enquanto durasse. Fuentes foi convidado pelo departamento de imprensa do Ministério das Relações Exteriores da República Socialista Checoslovaca para ir a Praga, e a StB, naturalmente, estava por dentro — recebeu um aviso do México de que valia a pena ficar de olho naquele indivíduo.

Fuentes, a quem a inteligência logo atribuiu o codinome “Faust”, se hospedou no hotel Jalta, na Praça Václav. De acordo com o relatório de um dos agentes, Fuentes mostrou-se uma pessoa de mentalidade progressista. Sua atratividade aos olhos da StB aumentou com a informação enviada rapidamente do México, obtida do agente Siki, de que Fuentes não era apenas uma pessoa honesta e competente, mas “gozava da confiança do general Cárdenas, de quem era também amigo pessoal”. Lázaro Cárdenas, ex-presidente, populista habilidoso e político com orientação marcadamente antiamericana, embora naquela época já estivesse há muito tempo além do auge de sua fama, ainda despertava admiração e seu nome tinha peso na política mexicana.

No entanto, a StB também recebeu a informação de que Fuentes era membro do Partido Comunista do México, o que significaria que não seria possível contar com ele no futuro como agente secreto. Era necessário verificar essa informação.

De qualquer forma, a sede da inteligência via nele um “contato valioso para a realização de medidas ativas de influência e de imprensa” e, por isso, a representação no México recebeu a tarefa de abordá-lo, ou seja, criar uma “base de amizade pessoal”, fortalecer o contato e estabelecer uma relação que incluísse encontros regulares entre um espião profissional e o escritor. Esse era um esquema clássico que — se fosse habilmente executado — poderia levar até mesmo ao recrutamento da pessoa em questão como agente secreto.

 

Essa tarefa foi confiada a um oficial de pessoal da inteligência no México, com o nome de código Šimovič, que assumiu a responsabilidade por “Faust” por ordem da sede e substituiu o agente “Romano”, que estava em operação até então.

 

Šimovič lançou-se ao trabalho com entusiasmo, conseguiu marcar um encontro com Fuentes e… veio a decepção.

Após um encontro de duas horas no restaurante Bellingen, na rua Londres (13 de abril de 1962), o oficial de inteligência, que trabalhava no México sob cobertura diplomática, teve de constatar que “não se pode contar com Fuentes no futuro como alguém de quem seja possível obter informações de forma sistemática e manter contato contínuo. Ele é do tipo boêmio e é preciso arrancar cada palavra dele.”

 

Šimovič conseguiu, de fato, arrancar alguma informação da fonte, mas verificou-se que até mesmo seu engajamento político, que parecia promissor e bastante progressista, era bastante fictício. O agente de inteligência constatou, desapontado, que “Faust” trabalhava em roteiros para filmes mexicanos e escrevia romances. Os artigos publicados em revistas políticas ele “produzia” principalmente por motivos econômicos. E o pior, escreveu o espião tcheco-eslovaco no final de seu relatório: “Apesar de ser membro do Comitê Central do Movimento de Libertação Nacional (tratava-se de um movimento marcadamente de esquerda, apoiado também por Cárdenas), ele não sabia absolutamente nada sobre o que se passava nesse movimento e afirmava que tudo estava indo bem…” Simplesmente um desastre — pelo menos do ponto de vista de um agente de inteligência ambicioso.

Nenhuma outra informação foi mais obtida e, assim, em fevereiro de 1966, a agência de inteligência decidiu arquivar o dossiê sobre Fuentes. Na proposta de arquivamento do dossiê, apenas se constatava que Fuentes se mostrava cada vez mais pró-Cuba e publicava frequentemente seus artigos na revista POLITICA, de orientação claramente de esquerda. Passou então a dedicar-se mais à literatura do que à política. Apresentava-se como um boêmio,… isolava-se e evitava contatos. Por isso, o contato com ele foi interrompido.

Do exposto acima, pode-se deduzir que a residência continuou mantendo algum contato oficial com o escritor, embora não tenhamos à disposição nenhum registro que confirme isso, mas isso não levou a nada (de utilidade para o serviço de inteligência).

Simplesmente, Šimovič, com seu olhar experiente de espião, avaliou perfeitamente a situação, e o serviço de inteligência não dedicou mais tempo nem energia a esse caso. Não valia a pena.

Hoje podemos pensar que a StB desperdiçou uma oportunidade perfeita

— afinal, um escritor com tanta visibilidade, alcançada nos anos posteriores, poderia ser uma excelente ferramenta nas mãos de desinformadores competentes; por meio dele, seria possível conduzir uma política de influência em escala realmente grande, moldar opiniões sobre diversas questões de acordo com um roteiro escrito na sede da inteligência em Praga, etc. Mas isso não passa de uma suposição ousada (e também ridícula), que não tem nada a ver com a realidade.

Os fatos são implacáveis — a inteligência tchecoslovaca simplesmente não conseguiu, nem poderia, manipular Carlos Fuentes de acordo com suas expectativas. E registrou isso com honestidade; graças à abordagem objetiva e profissional que os espiões tchecoslovacos tinham em relação ao seu trabalho, sabemos disso hoje por meio dos registros preservados.

Portanto, mesmo esse subfichário, localizado no extenso volume intitulado “Base México” (número de registro 11745), que hoje revela uma tentativa até mesmo embaraçosa de desenvolver um “alvo” que, à primeira vista, parecia valioso e importante, tem seu significado para a pesquisa. Embora se trate de apenas quinze páginas de registros, é uma fonte valiosa de conhecimento — a própria inteligência não se enganava em seus relatórios secretos, registrando os fatos exatamente como ocorreram.

Vladimír Petrilák

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