O duplo início do trabalho da rezidentura da StB no Chile

Compartilhe:

O documento aqui apresentado é de 22 de fevereiro de 1965 e diz respeito a um dos países da América Latina – o Chile. Trata-se de um documento secreto da inteligência tchecoslovaca, em que o chefe do Diretório I (responsável pela inteligência no estrangeiro) justifica a necessidade de reforçar a rezidentura em Santiago do Chile. Esta rezidentura já existia desde maio de 1962, e, até 1964, trabalhou nela somente um único oficial de carreira da inteligência (seu pseudônimo era “Hejduk”). O estabelecimento desta rezidentura da StB, assim como de outras na América Latina, foi condicionado por interesse dos soviéticos – isso é demonstrado por uma frase de um documento (ver ilustração acima) intitulado “Proposta para criação de uma rezidentura legal em Santiago do Chile”, que foi elaborado em Praga no dia 10.10.1961. Nele, podemos ler: “Os amigos soviéticos estão muito interessados ​​na organização da rezidentura do serviço de inteligência tchecoslovaco.” E foi justamente com essa frase que o chefe do Diretório I, Coronel Miller, justificou a organização deste posto da StB no estrangeiro, esclarecendo esta intenção ao Ministro do Interior. A partir do ano de 1947, a Tchecoslováquia rompe relações diplomáticas com o Chile, mantendo apenas uma missão comercial no país, e foi justamente com essa estrutura que a rezidentura foi instalada em 1962.

Assim, em 1965, quando restabelecidas as relações diplomáticas entre os dois países, essa base secreta da inteligência foi fortalecida. A ideia era simplesmente ter até quatro oficiais da polícia secreta entre os diplomatas da embaixada.

Os historiadores latino-americanos gostam de escrever que para o Bloco Leste, durante a Guerra Fria, a região da América do Sul era território secundário e irrelevante, pois era geograficamente distante e, portanto, fora de sua zona de interessante; que os soviéticos e seus satélites respeitavam o fato de que essa região era domínio dos Estados Unidos, então não atuavam prioritariamente naqueles países. Logo na primeira frase da “Proposta”, podemos ver que essa tese é incorreta. Vamos ao documento: Prezado camarada ministro, como resultado da atual rearranjo das forças políticas, o Chile está se tornando um dos futuros países da América Latina com perspectiva para o desenvolvimento do movimento revolucionário. (…) Esta situação exige um fortalecimento significativo das atividades da inteligência tchecoslovaca …      

Temos então que no ano de 1965 a StB tentou fortalecer suas atividades em um lugar distante, para onde não havia voos da linha aérea tcheca, para onde os oficiais da inteligência eram obrigados a viajar de forma complexa, com escala na Argentina, esforço que se justificava por objetivo maior: o de apoiar os movimentos revolucionários de libertação nacional na América Latina.  Isso tudo de acordo com os desejos dos soviéticos. Fica claro então que não se tratava nem de um capricho nem de uma maneira para combater o tédio dos oficiais tchecos.  

Mas o que provocou a mudança de estratégia? Uma das razões é que, após a vitória do político democrata-cristão Eduardo Frei (presidente nos anos 1964-1970), o Chile se tornou um lugar onde as chances de transição pacífica para um ambiente conveniente à influência do bloco leste comunista aumentaram significativamente. Para a StB, não importava o quão distante isso estivesse, era preciso aproveitar essa chance. A estrutura da rezidentura, que era então operada por apenas um oficial da StB, foi rapidamente ampliada, o que logo resultou em uma melhoria na capacidade operacional. 

Até o início de 1965, no Chile não havia sido recrutado um único agente (e nem conduzido para eventual recrutamento); isso mudou com o retorno a Santiago de um certo diplomata chileno lotado nos Estados Unidos, que, já recrutado pelo serviço de inteligência da StB na América, teve iniciada a sua condução. Era um agente com o pseudônimo de “Adam”, uma figura muito interessante na diplomacia chilena. Este agente serviu a StB (por dinheiro) por muito tempo, mesmo depois do golpe de Pinochet em 1973 – e tudo indica que a KGB também fez uso de seus serviços. Embora por muito tempo ele tenha sido pouco importante na diplomacia, esse homem foi, não apenas um agente valioso, mas posteriormente também desempenhou um papel que influenciou até mesmo na história mundial – mas isso já não tem relação com a StB. Dedicarei um texto em separado sobre este caso, o qual será publicado em breve … 

Voltando para a rezidentura em Santiago do Chile, a partir do ano de 1962, foi feito aqui algum trabalho para a inteligência tchecoslovaca, mas a eficácia do oficial da StB que fingia ser um representante comercial era pequena (devido a seus inúmeros problemas, incluindo saúde e problemas pessoais). Foi apenas esse “fortalecimento da rezidentura” em 1965 que trouxe um estímulo que tornou o trabalho da inteligência mais dinâmico, o que logo levou a efeitos reais, que a sede de Praga notou após cerca de dois anos de mudança de conceito e pessoal de trabalho. A nova abordagem resultou no que é o essência do trabalho de inteligência – o recrutamento de uma rede de agentes em 1967 diretamente no território do Chile entre as fileiras dos cidadãos daquele país.

A rezidentura legal (embora fosse uma célula secreta, na documentação interna da StB era qualificada como legal) funcionou aqui até o golpe de setembro do general Augusto Pinochet em 1973. Vale lembrar que uma das vítimas suicidas do golpe no palácio presidencial de La Moneda, onde o presidente Salvador Allende também cometeu suicídio, foi também um dos agentes da inteligência da StB – “Talio”. O Diretório I do Ministério do Interior da Tchecoslováquia conduziu-o como um contato confidencial desde 1967. O contato confidencial é uma das categorias no sistema de classificação de agentes usado pela StB. “Talio”, conhecido no Chile pelo apelido “El Perro”, foi, portanto, o primeiro chileno adquirido no território deste país tão distante para os tchecos.           

Durante os anos seguintes, a StB conseguiu adquirir para a colaboração, cerca de 13 colaboradores secretos, que foram conduzidos como agentes e contatos confidenciais. Além disso é preciso adicionar uma quantidade ainda maior dos chamados contatos e figurantes, ou seja, pessoas com quem os oficiais do serviço de inteligência de Praga faziam contato e de quem obtinham informações ou serviços. Em 1969, a StB no Chile usou 16 valiosas fontes pessoais, entre as quais não apenas agentes, mas também figurantes e contatos. Algumas dessas pessoas estavam apenas na chamada fase de “reconhecimento”, mas mesmo assim eram tratados como “informantes confidenciais e valiosos”. Cabe um parênteses, não estamos falando aqui sobre os chamados colaboradores ideológicos; esta era uma categoria distinta de colaboradores, eram cidadãos tchecoslovacos que trabalhavam no Chile, geralmente eram adquiridos para cooperação antes de viajarem para o exterior, e era considerada uma categoria de agente. A partir de 1967, a rezidentura, que formalmente existia há cinco anos no país, mas de fato só funcionou em sua plena capacidade por apenas dois anos, em termos de resultados passou a se equiparar a outras rezidenturas da StB na América Latina (Bogotá, Buenos Aires, Caracas, México, Montevidéu, Lima, Rio de Janeiro e Havana, que funcionou um pouco diferente das outras).

Um capítulo a parte e surpreendente na história do serviço de inteligência da Tchecoslováquia foi a chamada ação “Andromeda” – tratava-se de uma operação realizada no Chile nos anos 1975-1980, quando lá havia se instalada uma rezidentura ilegal da StB, e profundamente secreta.

Podemos dizer que a rezidentura em Santiago do Chile nasceu duas vezes. Pela primeira vez em maio de 1962 e novamente em 1965, quando um corpo que apenas vegetava e não trazia quase nenhum resultado foi “reavivado”, ou seja, fortalecido e melhor localizado (na embaixada, o que significava imunidade diplomática para oficiais de inteligência que trabalhavam sob a cobertura diplomática). Este segundo nascimento foi um verdadeiro início de trabalho de espionagem real, em sua plenitude de qualidade operacional e de inteligência neste país.     

Com base em pesquisas feitas até agora sobre o trabalho do serviço de inteligência da Tchecoslováquia em outros países do continente sul-americano (Brasil, Uruguai, Colômbia), pode-se dizer que geralmente, passados dois ou três anos da instalação de uma rezidentura, a StB já tinha condições de “sentir-se em casa” o suficiente em determinado país para que pudesse realizar com sucesso suas tarefas operacionais. Portanto, o ano de 1965, no caso do Chile, pode ser tratado como o verdadeiro início de seu funcionamento, sem diminuir o trabalho do primeiro residente “Hejduk”. Neste contexto, vale a pena notar que, em 1963, a KGB soviética solicitou à StB para que cuidasse de sua comunicação criptografada com Moscou. O residente soviético da poderosa KGB não podia simplesmente realizar essa importante atividade e teve que contar com a ajuda de seu colega tchecoslovaco. E foi essa a tarefa de que foi encarregado o camarada “Hejduk”, que naquela época trabalhava sozinho, não tinha um funcionário de criptografia à sua disposição (o que era um padrão nas várias rezidenturas). Portanto, é preciso reconhecer que o oficial de inteligência tcheco, trabalhando legalmente como representante comercial, tinha muito trabalho e de alguma forma conseguiu dar conta de tudo.

No entanto, o ano de 1965 foi realmente um ano marcante para o trabalho da StB em Santiago do Chile, o que se confirma, por exemplo, no documento de 10 de dezembro de 1965, em que o chefe da Seção 8 (desinformação) do Diretório I, Major Jiří “Borecký” avalia o ano que passou do ponto de vista da realização de operações ativas, ou seja, ações de desinformação. O historiador e pesquisador tcheco Petr Rendek publicou na página de internet minulost.cz uma lista de operações ativas (AO) que o serviço de inteligência executou ao redor do mundo em determinado ano. Notemos o fato de que o Chile também foi mencionado nesta lista (nos anos anteriores, o país não aparecia nas avaliações Seção 8), onde foram realizadas duas AOs: MORA e PANAR. Quanto à rede de inteligência utilizada para esse fim, com a qual as operações foram realizadas, foram mencionados dois pseudônimos: “Talio” e ..“Tufo”.

 Naquela época, em 1965, esses dois codinomes ainda não eram agentes ou contatos confidenciais de pleno valor; foram classificados pela StB apenas como “candidatos para DS” (DS – abreviatura tcheca para contato confidencial), ou seja, eram pessoas “em fase de reconhecimento”. O inventário de arquivos online do Arquivo dos Serviços de Segurança tcheco (ABS, link abaixo da imagem) permite que cada usuário da Internet pesquise exatamente a quem a StB atribuiu os codinomes mencionados. “Talio” é Augusto Olivares, “Tufo” – corretamente “Tufi” é Alberto Gamboa. Ambos foram, como já mencionei, adquiridos como contatos confidenciais ou figurantes em 1967, mas dois anos antes  haviam sido usados ​​para alcançar objetivos de desinformação do serviço de inteligência tchecoslovaco do Diretório I da StB.            

 Registros sobre Talio e Tufo de dois diários, de registro e de arquivo (livros onde foram registrados agentes e colaboradores secretos da StB): https://www.abscr.cz/jmenne-evidence/

Como podemos ver, o país distante não era uma parte secundária e irrelevante do mundo para o serviço de inteligência da Tchecoslováquia comunista. Além disso, as pessoas das fileiras de cidadãos chilenos que colaboraram com os exóticos recém-chegados de Praga eram muito menos secundárias e irrelevantes para a história. Vale a pena dedicar um pouco mais de atenção a este assunto.

 

Vladimír Petrilák

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *